Um regresso que jamais será definitivo

Eu estive lá – Testemunho da minha experiência missionária Testemunho de Maria José Silva, professora de Avanca, que dedicou as férias a projectos de educação dos missionários salesianos, em Moçambique. Com a colaboração de professores locais, organizou uma biblioteca

Dia 20 de Julho de 2007, estava de novo de partida para Moçambique. Esperava-me uma longa viagem de 15h, entre Lisboa, Joanesburgo e Maputo. Contudo, nem isso me fazia perder o ânimo que marcava a minha partida pelo 3º ano consecutivo.

Em Maputo, ao reencontrar os meus anfitriões, pronunciei com a voz algo embargada pela emoção, a frase “Eis-me de novo aqui!” Sorriram e, com um abraço forte, disse-ram “Hoyo-Hoyo, Maria” (Bem-vinda!) Uma recepção calorosa, um reencontro sempre emotivo.

No dia 22, viajei para Tete – Escola Profissional do Matundo, onde já estivera anteriormente, embora com novas tarefas. A paisagem, ainda que igual àquela que me surpreendera no ano passado, predominantemente árida e com imensos embondeiros, desfilava perante os meus olhos, debaixo de um calor intenso, ao qual tive de me habituar rapidamente.

O desafio proposto para este ano era ambicioso e interroguei-me um pouco céptica: “Será que vou conseguir?” Teria de organizar a biblioteca da escola. A maioria dos alunos encontrava-se em pausa lectiva há quase dois meses, “forçada” pelo recenseamento eleitoral e pelo censo à população (tarefa pensada para esse período mas ainda longe do seu fim!). Os restantes estavam em actividade, na construção do salão polivalente (cozinha, armazém e sala/cantina), para onde será canalizado o resultado do meu projecto de angariação de fundos, pois este ano passou a distribuir-se a alimentação aos alunos. Neste momento, cozinha-se e come-se ao ar livre, o que será dificultado quando chegarem as chuvas. Havia ainda alunos e professores a trabalhar na carpintaria e na serralharia, congregando esforços para a construção da obra.

A reorganização da biblioteca começou pela selecção dos livros, encaixotados, a sua distribuição segundo as diversas temáticas, o registo informático, a catalogação e arrumação nas estantes. Para isso, contei com a colaboração de alguns professores. Quatro semanas depois, conseguia ver o trabalho concluído, com algum esforço, mas com uma grande satisfação por ter atingido mais uma meta. Foi ainda criado, com os meios de que dispunha, o sistema de empréstimo e o cartão do aluno. Agora os professores e alunos têm mais um instrumento de trabalho que lhes permite melhorar as suas competências. Provavelmente ainda muito há a fazer, mas foi dado um passo importante.

Houve oportunidade para outras actividades e acompanhamento de crianças e jovens, que, por não terem aulas, procuravam a nossa escola para as mais diversas formas de ocupação do seu tempo e, como o tempo é todo deles, aproveitavam-no para jogos, dança, desenho e leitura, actividade que implementei e que teve muitos adeptos. Todos os dias chegavam junto de mim crianças, que percorriam a pé vários kms, ávidas de ver, tocar nos livros, ler ou ouvir ler. Foram momentos inesquecíveis, quer dentro da biblioteca, quer na relva, sentados em redor de mim, com um livro na mão ou escutando as minhas histórias. Ao domingo, no Oratório, estas e outras crianças procuravam-me para o seu passatempo – a leitura.

Visitei a vila do Songo (onde se situa a Barragem de Cahora Bassa); a comunidade de Zobwe, a cerca de 80 km, onde a paisagem muda consideravelmente de figura. Predomina o verde de um vale no meio das montanhas. Contudo, ali a vida está longe de ser fácil! Outra actividade que preencheu esta minha temporada foi a visita, com as crianças do oratório e alguns alunos da escola, à Pediatria do Hospital de Tete. A viagem até à cidade foi animada, com as crianças a cantar, sentadas na traseira do camião, numa alegria que nos transcende e nos contagia. Esperavam-nos as “mamãs” das crianças internadas. Passámos uma tarde animada por entre cantos, danças, teatro e diversão total. Levámos a alegria a quem está doente, trouxemos sorrisos rasgados e mais uma experiência inolvidável para recordar.

Cedo chegou a hora do regresso – dia 27 de Agosto. Mais uma vez senti que o tempo passou depressa e que muito haveria a fazer. Ainda antes de partir, foi-me lançado um novo desafio, o de regressar no próximo Verão, por um período de dois meses, para auxiliar na implantação de uma escolinha! Regressarei certamente! Permito-me dizer que já existe um pedacinho de África no meu coração e que a minha viagem não tem regresso efectivo. Hei-de voltar. Esta é uma certeza.