A árvore de Zaqueu*
* «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.
29.º Domingo do Tempo Comum (Ano B)
1.ª leitura: Livro do Profeta Isaías 53, 10-11
2.ª leitura: Carta aos Hebreus 4,14-16
Evangelho: São Marcos 10,35-45
Um filme clássico, dos anos 70. Entre bom humor e dramatismo, a figura principal – um judeu, são de corpo e alma – exclama: «Eu sei, Senhor, que somos o teu povo escolhido! Mas não poderias agora escolher outro para o fazer sofrer?»
A 1.ª leitura deste Domingo refere-se de novo ao «servo de Javé» – uma figura misteriosa que os próprios exegetas não conseguem identificar: símbolo do «Povo escolhido», no seu conjunto? Símbolo de todos aqueles que trabalham com Deus? Ou será a representação de algum profeta, rei ou qualquer outra personalidade, cuja acção é da maior importância para o projecto da salvação do Homem? É provável esta última hipótese – sem se aplicar necessariamente ao Messias. Como quer que seja, a missão do «servo» é proclamar o direito e a justiça em toda a terra, mesmo que tenha que enfrentar perseguições, torturas e a morte. Proclama a certeza do sucesso final e que ficará para sempre «junto» do Deus vivo.
Marcado pelo sofrimento e pelo aparente abandono de Deus, o «servo» lembra um pouco o sofrimento de Job. Mas Job discute com Deus, não compreendendo a razão de ser do seu sofrimento. Uma discussão representativa de todas as angústias humanas e que acaba também numa aparente frustração: Deus apenas lhe faz sentir que «os caminhos de Deus não são os nossos caminhos» (Isaías 55,8) e que a nossa razão não penetra o que é Deus (Job 42,3).
Em contraste, o «servo de Javé» pouco fala. Os quatro «cânticos do servo», dispersos nas crónicas do profeta Isaías, apresentam-no uma pessoa silenciosa, símbolo da tremenda inquietação sobre o sentido de toda a vida humana. Como unir Deus e Humanidade? Que realidades são estas? Para a linguagem humana, poderiam ser dois expoentes da força cósmica da vida: um, seria o expoente da pura vida sem sofrimento, sem morte, sem limitação alguma; o outro, o expoente da consciência da desproporção entre essa pura vida e a dos seres que se transformam continuamente, de morte em morte, de dor em dor, mas também de alegria em alegria, de amor em amor, de vida em vida.
O «homem das dores» da 1.ª leitura é o mesmo sobre quem Deus «fez repousar o seu espírito para que leve às nações a verdadeira justiça» (Isaías 42, 1). Será preciso tanto sofrimento para que a justiça se realize? As leituras dos últimos domingos juntam justiça a martírio: martírio significa «testemunho voluntário». O «servo de Javé» testemunha como a verdadeira justiça implica a capacidade de perseverança: frente à morte, frente à tristeza, frente à corrupção.
Para os seres humanos, é essencial a esperança da união perfeita entre Vida e Justiça. Jesus Cristo, que a tradição cristã identificou ao «servo de Javé», mostrou que o sacrifício autêntico é darmos a nossa vida (o nosso trabalho de todos os dias!) pela construção de um mundo de justiça. E tal como o servo, «pela sua sabedoria trará a justiça a multidões de homens» (1.ª leitura).
Nos antigos rituais de sacrifícios, matavam-se animais para «apaziguar a ira de Deus», num gesto de abdicação de um bem. Pedia-se a Deus que esquecesse (o termo hebraico significa «ocultasse») os nossos pecados. Mas o grande sentido deste conceito, já no Antigo Testamento, era o de perdão: pedir o perdão de Deus é reconhecer as falhas que acompanham o próprio esforço em lutar pela justiça. A reconciliação entre o Homem e Deus, porém, exige uma contrapartida: que «perdoemos a quem nos tem ofendido».
Lembre-se, porém, que Jesus Cristo nunca se apresentou como sacerdote, nunca exerceu essas funções nem as propôs aos seus seguidores. E quando fala dos sacerdotes, critica a sua organização demasiado à imagem da organização do poder civil. Instituiu, isso sim, e com todo o vigor, um pequeno grupo propagador de Vida e Justiça. Nem o sofrimento dá direito a alguém, como diz o evangelho, «para se sentar à direita e à esquerda» de Jesus (os discípulos só pensavam na «glória» do Mestre, porque durante a «paixão» foi o que se viu…).
Na realidade, Jesus Cristo não é uma figura silenciosa como o servo de Javé, e demarca-se da solenidade e importância terrena de um sumo sacerdote. Fala com todos e aproveita as vistas curtas dos próprios apóstolos para dar lições profundas aplicáveis (por vezes, de que maneira!) a todos os «sucessores dos apóstolos»: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas, e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem de vós quiser tornar-se grande, tem de mostrar que está mesmo ao serviço dos outros».
Nem sempre tocaremos as nossas «melodias» no cimo de um telhado, e menos vezes veremos um coro de admiradores à nossa volta (ou um coro de manifestantes exigindo que agora seja a vez de outro para sofrer…). Mas é natural o desejo de nos sentirmos apreciados – é mesmo uma necessidade básica, a que corresponde o dever de mostrar aos outros, sempre que oportuno, o nosso apreço. É uma maneira, ao alcance de qualquer um de nós, de repor a ideia de justiça, para a qual ninguém se pode conformar perante o sofrimento, que tanto atinge «os maus» como «os bons». Aliás, o próprio «servo de Javé» acaba por ser glorificado por Deus.
Não precisou Jesus de se refugiar no carinho de gente amiga? Precisamos de treinar aquelas manifestações de apreço, aquela companhia amiga, aqueles diálogos onde há críticas e sugestões… que favorecem a formação de pessoas suficientemente corajosas para proclamar e construir um mundo novo.
Manuel Alte da Veiga
