Um outro olhar pelo Desporto… Como em todas as histórias, poderíamos começar por “…era uma vez um menino que nasceu pequeno mas com ganas de se implantar e fazer deste mundo do desporto algo de novo. Deram-lhe um nome assaz pomposo: Ano europeu de educação pelo Desporto!”
E lá fomos embalados nos objectivos traçados, nas Comissões eleitas e nos embaixadores zelosos de tal tarefa; nos orçamentos dispendidos e na Comissão de honra empossada. Tudo estava previsto para funcionar. No fundo da pirâmide, o povo que se pretendia mais educado e mais desportista, já que, por exemplo em Portugal, 70% da população tem uma vida sedentária; 37% com mais de 18 anos tem excesso de peso e 13% é obesa; e a educação pelo desporto tem embalado em práticas pedagógicas que continuam no chamado “Apito Dourado”, como telenovela mais recente…à espera dos próximos capítulos.
Ainda se esforçaram os nossos Bispos, em documento publicado em finais de 2003: “O desporto ao serviço da construção da pessoa e do encontro dos povos”, onde afirmavam a dada altura – e citando o papa João Paulo II – que o desporto “deve oferecer uma contribuição válida para a construção de um mundo sem fracturas e sem fronteiras, para ajudar ao entendimento pacífico entre os povos e colaborar para a confirmação da nova civilização do amor no mundo”.
Mais tarde veio a Constituição Europeia – ainda não referendada – que procura “desenvolver a dimensão europeia do desporto, promovendo a equidade e a abertura das competições desportivas e a cooperação entre os organismos responsáveis pelo desporto e protegendo a integridade física e moral dos desportistas, nomeadamente dos jovens.”
Nunca pretendemos, ao longo deste ano, dar guarida aos profetas da desgraça que logo no princípio do ano duvidavam da sua eficácia com palavras como estas: “Não passa de um puro sofisma e de uma falsidade proclamar que o Ano Europeu de Educação pelo Desporto vai transformar, ética e moralmente, a prática desportiva. Cá estamos para ver! Uma prosa em-baladora; meia dúzia de slogans e de palavras-de-ordem; uma ou outra iniciativa pública com criancinhas muito bem vestidas; pouca imaginação e uma assustadora ausência de equipamento doutrinário – nada disto contribuirá para um desporto novo.”
Palavras proféticas, agora que estamos a terminar o ano e a nossa tarefa neste espaço do jornal. Dificilmente nos apercebemos que, neste como em tantos problemas, não basta arranjar programas, nomear gente e dotar de orçamentos, para que as coisas funcionem, mas como dizia a história, mais que deitar perfume na água do tanque é preciso tirar lá de dentro o cão que se vai putrefazendo, para que a água volte a ser límpida.
O desporto que vivemos no país está ao serviço de um determinado tipo de sociedade e, por isso, inquinado de uma subtil atmosfera de imperialismo tecnológico e financeiro, a viver de resultados enganadores, e a provocar, inevitavelmente, uma guerra entre grandes e pequenos, onde ninguém quer ser pequeno.
Se alguém tiver a coragem de tirar o cão, poderemos perder o campeonato, mas ganhamos uma água límpida no tanque. E isso é obra de todos, e se calhar vale a pena, mesmo que 2005 não seja Ano da Educação pelo Desporto.
