Uma ética rendida

Livro “Os dez mandamentos no século XXI” O último livro do espanhol Savater apresenta uma ética que perde a força da utopia e se rende à realidade – o contrário dos mandamentos de Moisés.

As cartas, em forma de livro, com que Fernando Savater vem brindando o seu jovem interlocutor com reflexões epistolares sobre a ética e política abriram-lhe um caminho que já lhe consagrou um lugar entre os leitores portugueses que confirmam que, afinal, «de Espanha sempre podem vir ventos e casamentos» que não sejam necessariamente rejeitados por se pressuporem maus.

Mas, se os ventos têm sido de feição para este professor catedrático de Ética, vislumbramos que, com este livro, a maré poderá vir a mudar. Aguardamos, com curiosidade, mas de espírito crítico aguçado.

Na verdade, esperando nós encontrar reflexões que, necessariamente, críticas e autênticas, resultantes da confluência entre a fé milenar de Moisés e o agnosticismo pós-moderno de Savater, seriam provavelmente marcadas pela coerência e oportunidade, sofremos algum defraudamento. Com efeito, a nossa progressiva leitura conduziu-nos à convicção de que a proposta de Savater não vai além de uma panfletária proposta de uma ética que, perdendo a sua força de utopia, se rende à realidade. Mais ainda, não deixa de ser surpreendente alguma confusão de conceitos, em concreto, no momento de reflectir sobre a eutanásia, onde não fica clara a distinção entre terminar com um processo que visa prolongar, sem qualidade, uma vida meramente vegetativa (isto nada tem de eutanásico), e o fim deliberado, contando com a acção médica, de uma vida que, dolorosa na sua condição, poderá ser atenuada na sua dor, por meio de cuidados paliativos.

Retomando a questão da sua visão ética, confirmamos, com este título, uma impressão que já nos ficara da leitura de Ética para um jovem: a ética, proposta por Savater, rende-se ao real e perdeu de todo do horizonte, a força utópica que define a natureza da ética: ser um desafio à realidade, aos comportamentos e às atitudes. O prisma de Savater não é o valor do agir, mas o valor da consequência do agir no sujeito que age. “Se, para mim que ajo, os efeitos são positivos, prazenteiros, me convêm, então, o meu agir será bom”. A ética, assim formulada, perdeu a sua energia, pois reduziu-se ao tópico, ao local, perdendo força e capacidade de se universalizar.

Uma ética pós-moderna, mas não para a pós-modernidade, necessitada de novos rumos. Esta é, paradoxalmente, uma ética da legitimação, uma ética que legitima o real, afundando-se com ele.

Luís Silva