A Igreja, mesmo com as suas limitações e omissões, incomoda sempre os cidadãos eruditos que observam a vida e o mundo de um palanque cómodo, fumando os seus caríssimos havaianos, munidos de binóculos modernos que só vêem, como é óbvio, para onde os dirigem, que, normalmente, é o vazio humano e social que os povoa.
Em clima de aniversário festivo, foi dito pelo chefe de um grupo legalizado e que, livremente, se proclama ateu, que “é necessário um movimento ateísta para travar a exuberância da Igreja Católica, num país, Portugal, “onde a sua influência é já muito pequena, residual”.
Ainda bem que cada cidadão é livre de opinar. Mas, um milhão de opiniões livres, nunca por si e pelo seu número, fazem uma verdade. Esta não é subjectiva nem se cria ao jeito de cada um. Por mais que custe aceitá-lo, onde não há objectividade não há lugar para a verdade.
Olhe-se para este tempo de crise social. Quem mais presente, de maneira organizada e efectiva, que a Igreja e os seus grupos e instituições, junto dos mais pobres e excluídos? Quem mais defensor dos direitos humanos e mais interventor quando eles não são reconhecidos? Quem mais próximo das famílias? Quem mais ocupada com os portadores de deficiências, mentais e outras, e com as vítimas das muitas mazelas, congénitas ou adquiridas, a que nem sempre estão alheios os que atiram pedras e escondem a mão? Quem mais criativo e inovador no campo da educação, da acção social e da paz?
A Igreja, pelos seus membros, tanto é pecadora como irmã universal que luta pelo bem, num mundo onde abundam os acomodados. Reconhece as suas limitações e falhas, mas, também, o seu caminho de conversão, os seus méritos passados e presentes, a sua vocação de serva das pessoas, homens e mulheres, de qualquer raça, religião, língua ou cor. Por isso não se acomoda e se, por vezes, o fez ou ainda o faz, é contra a sua razão de ser e missão permanente. Tudo isto o dizem as páginas da história, nas quais, uma multidão inumerável de procuradores dos pobres, ocupa lugar cimeiro, com destaque para gente da têmpera de Francisco de Assis, Vicente de Paulo, José Cotolengo, João de Deus, Frederico Ozanam, Américo de Aguiar, João XXIII, Teresa de Calcutá…
Alguns governos laicos põem entraves à sua acção, mas não podem negar o que é claro e que o povo agradece como o sempre beneficiado. Só o facciosismo, a ignorância, a cegueira, o fanatismo podem negar uma realidade, que se mete pelos olhos dentro.
Não tenham medo os ateus, sobretudo aqueles que, para se afirmarem, precisam de fechar os olhos à realidade. A Igreja já aprendeu a respeitá-los, mesmo quando bolçam ataques e sonham planos, pejados de desprezo e ódio.
À Igreja não a move, como foi dito, a ânsia “que procura tomar conta de tudo”, mas, sim e sobretudo, move-a o cuidado dos mais pobres, que os bem instalados normalmente desconhecem, não sabem onde moram, nunca lhes viram, nem lhes trataram as feridas do corpo e do espírito. Nunca lhes enxugaram as lágrimas e nem ouviram, com amor, respeito e paciência, os seus desabafos mais pungentes e sentidos.
Sei bem que os tempos não são nem de apologia, nem de apologética. A Igreja Católica, porque o sabe, deixou essas armas do passado, usadas para se manifestar e defender. A sua acção e a sua defesa está agora no serviço que presta à humanização da sociedade, à causa da paz, à promoção da solidariedade, ao cuidado dos mais excluídos, à resposta possível às crises sociais. Não para ganhar prestígio, mas para testemunhar o Evangelho do amor, fazer seu, como Jesus Cristo, o caminho do homem. Os penachos do tempo, e as críticas mordazes, morrem no tempo. Perdura a consciência do bem procurado e realizado. Este é o caminho. A Igreja, fiel à sua missão, não pode ter outro.
