O dia 8 de Março é anualmente dedicado à Mulher. Tal data faz-me passar, como em filme, os exemplos maravilhosos de Mulheres do tempo passado e do nosso tempo, que se distinguiram – ou distinguem – em acções meritórias de bem-fazer. Neste sentido e particularizando, trago hoje à ribalta apenas uma delas, cuja dedicação a pessoas e a instituições sempre me impressionou. A isto também me incentivou o testemunho autobiográfico de uma leitora anónima, publicado no último número do Correio do Vouga. O meu depoimento despretensioso poderá significar um gesto de participação no rescaldo comemorativo daquele dia.
Não interessa o nome desta Mulher, que aliás é invulgar, senão único: Aneluegira Merahia Seprino; para maior facilidade, seria preferível que se chamasse Maribel Cândida de Caria – o que vai dar no mesmo. Uma vez, depois de apanhada fortemente por Deus até à medula no seio da sua comunidade paroquial, encontrou-se a reflectir no desabafo do profeta Jeremias (cf. 20, 7-9): – «Seduziste-me, Senhor; e eu me deixei seduzir! Dominaste-me e obtiveste o triunfo. […] Em face das dificuldades e incompreensões, eu caio na tentação de dizer a mim própria: não mais mencionarei Deus e nem falarei em seu nome. Mas, no meu íntimo, há um fogo devorador, encerrado nos meus ossos. Esgoto-me a refreá-lo, mas não o consigo.» E tal meditação é-lhe frequente.
E assim tem vivido e porfia em viver, deixando transparecer o incessante entusiasmo e a expansiva alegria em qualquer momento ou em qualquer circunstância, mesmo nas horas aflitivas das suas dores físicas. Para ela, o sofrimento não é um peso sem sentido nem um drama sem esperança; pelo contrário, é caminho de redenção, é oportunidade de crescimento e é anúncio de bem-aventurança. O Espírito Santo a conduz e lhe dá o auxílio necessário para superar todas as provas. Nela se verifica o que o nosso Bispo escreveu em 11 de Fevereiro passado: – «Quantas vezes o sofrimento nos aproxima, nos liberta, nos faz irmãos, nos desvela a nós próprios e nos abre sentidos novos à vida, com marcas de esperança e com traços de consolação, de serenidade e de paz!»
Nem a doença continuada, nem o cansaço teimoso, nem as agruras variadas, nem as maledicências alheias… nada disso a demove de persistir em ser o que é: – Mulher fiel ao projecto de Deus, que aceitou com determinação. Sofre com autenticidade os problemas da sua comunidade, sem descurar os deveres profissionais e as responsabilidades familiares com o marido e com os filhos. Não manda nem pede para fazer, mas faz; não julga nem critica, mas insere-se nas tribulações dos humildes; não sabe parar nem estar quieta, mas caminha; pratica o bem com amor, sem nada esperar em troca. Para se realizar humanamente, comunica sempre com toda a gente, a propósito e a despropósito, qual fonte borbulhante cujas águas nunca faltam. Em todas as eventualidades, quer ter o desejo de S. Paulo (Fil. 1, 21): – «Para mim viver é Cristo.» Por isso, numa confissão saída do seu coração, pôde afirmar-me um dia: – «Confio que Cristo conduz a minha barca, sobretudo nas águas adversas; não desisto e espero nunca desistir, apesar de parecer que Ele não está comigo. Nestas alturas de tormento, talvez Ele esteja mais próximo, a levar-me carinhosamente ao seu colo.»
Esta Mulher cristã, sentindo-se escolhida por Deus não para ser um privilégio mas para ser um serviço aos demais, aparece como mensageira surpreendente da fé em Jesus Cristo; como testemunha fidedigna da virtude pelo exemplo; como conselheira solícita dos que dizem não ter dúvidas; como muleta sólida e firme dos titubeantes e indecisos. A Aneluegira aproveita o tempo que lhe é concedido, sem cruzar os braços, gastando com utilidade o seu «quarto de hora de sentinela» – na expressão repetida por D. Manuel de Almeida Trindade. Decerto que anseia por cumprir a recomendação do autor bíblico Ben-Sirac (7, 36-39): – «Estende a mão aos pobres… dá de boa vontade aos vivos… não deixes de consolar os que choram… aproxima-te dos que estão aflitos… sê diligente em visitar os doentes… pois é assim que te firmarás na caridade.» Embora ela nem sequer pense nisso, vejo-a como uma imitadora do Santo Apóstolo (1Cor. 9, 22-23): – «Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos; fiz-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo; e tudo isto eu faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante.»
Talvez o leitor julgue que esta Mulher é uma mera utopia. Garanto-lhe que não. Ela anda por aí nas ruas deste nosso mundo. Se alguém a descobrir com os olhos do coração, nessa altura terei a alegria de apenas não ser eu a encontrá-la. Mas não é fácil descobri-la, porque, na sua simplicidade, jamais ambicionou nem ambiciona dar nas vistas. Desta maneira, corresponde ao conselho de Jesus Cristo (cf. Mt. 6, 1-3): – «Não pratiqueis as vossas boas obras diante dos homens para serdes vistos por eles (…); não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.» Decerto que os gestos de amor de tal Mulher vão certamente perdurar na memória e no coração dos que são singularmente favorecidos por ela, dos que têm o privilégio de a conhecerem e dos que casualmente ouvem falar da sua bondade.
Há pessoas que provocam espontaneamente uma interrogação no íntimo da nossa própria consciência: – Donde lhes vem o alento que lhes dá tanta afoiteza arrojada, tanta ousadia destemida e tanto entusiasmo apaixonado? Eu pessoalmente respondo, desde já, com fundada razão: – Só de Deus… e de mais ninguém.
