Uma pedrada por semana Mais casas de penhores e mais procuradas por muita gente, dizem os jornais. Assim se denuncia a pobreza crescente de pessoas e famílias, antes remediadas ou com alguma independência. Os pobres não têm para penhorar senão a sua enraizada miséria. E para esta não há penhora. Que a aguentem, porque só a eles diz respeito. A menos que haja quem partilhe fraternalmente esta realidade e assuma a miséria alheia também como dor própria. E vão aparecendo “loucos” com estes sentimentos, que partilham quanto podem, sem que sejam necessários requerimentos, relatórios, dar de contas das ajudas recebidas…Normalmente gente modesta que viveu iguais situações. Não penhora, nem empresta. Esse não é o jeito nem o caminho dos pobres em relação aos mais pobres. Os pobres com coração partilham.
O tesouro do pobre era a peça de ouro, suada e guardada, para os momentos de aflição. Então dizia-se: “Vão-se os anéis e fiquem os dedos”. Outros, mais remediados, tinham coisas de herança, bem guardadas como a memória de quem as doara ou de quem se herdaram. Coisas intocáveis, sagradas. Agora, também estas vão caindo, misturadas com lágrimas de dor e beijos de saudade, nas casas de penhores. Sem esperança fundada de um dia serem redimidas ou readquiridas a qualquer preço…
A pobreza de raiz ou que chegou envergonhada e sem se esperar, não é só carência de bens. É também morte de afectos legítimos, mutilação de sentimentos, quando não beco sem saída.
As casas de penhores acabam por ser uma salvaguarda, um recurso de emergência, o último lampejo possível de uma esperança de passagem. Muitos do que agora aí recorrem são empurrados por forças que não accionaram e de que não são culpados e lhes caem em cima, como raios geradores de necessidades incontroláveis. Pobres dos pobres…
