Uma qualquer noite de oração… no meio da Amazónia dos Sem Terra

Chegámos há três dias a Belém do Pará, a sul do delta do Amazonas. Depois de cerca de uma semana e meia da partida de Aveiro, até Manaus por avião, e, daí, de barco Rio Amazonas fora, onde fomos vendo e reflectindo um mundo novo que nos entrava olhos a dentro e nos ligava a um estado original da criação, a um sentido, a uma ideia, a um vislumbre da vontade de Deus – o equilíbrio entre o Homem e tudo o resto – o Amor entre todos e a inesgotabilidade da Vida!

Toda essa pureza fomos vendo, até chegarmos ao Bairro da Pedreira, onde fica a Escola Salesiana do Trabalho que nos acolhe. Um bairro periférico, pobre, cheio de barracas, sem rosto, sem nome e sem memória… Percebemos aqui uma certa pureza e beleza inicial, mas agora não nos lugares, nas pessoas.

Reunião do Grupo Bíblico

É aqui que começa a história de ontem. Dirigimo-nos a uma casa, na companhia do Irmão António, salesiano há 42 anos (dizia a brincar que estava na hora de mudar de con-gregação… já era muito tempo desde a sua terra italiana e longínqua de Turim). Com simplicidade, fomos atrás dele pelo meio do caminho de luzes, gatos de electricidade, lama e formigas, pessoas e lixo, por entre barracas com furos de balas nas paredes.

Fomos a casa de uma família. Íamos ao encontro semanal do grupo bíblico – um grupo de pessoas que se juntam nas moradias de 10 metros de comprimento por 10 de largura, as melhores pelo menos.

Muitas vezes, a porta, que parece ser de uma barraca de madeira, abre-se não para um corredor escuro e mofo mas para um conjunto enorme de casinhas minúsculas, cada qual com a sua família de seis filhos.

O silêncio, a sujidade, a madeira comida suspiram num clamor desesperado de dignidade. Como é possível viver aqui, pergunto-me eu do alto das minhas sandálias de marca…

Onde Deus mora

Na casa desta família, onde entramos descalços, qual sinal de vida, há um certo respeito no gesto. À entrada, muitos chinelos, calçado simples. Uma imagem que falou de carinho, de relação entre as pessoas. Falou de um espaço sagrado. Aquele barraco transformou-se num palácio. Deus morava ali, na casa e em cada pessoa daquela comunidade. Tudo descalço, então, pois Deus ia falar aos Homens naquela noite quente e irrespirável. Deus ia ouvir o pedido de socorro dos seus amados filhos e ia responder, ia libertar do pesado que a pobreza anónima arrasta para si.

Religiosamente descontraídos, sentimo-nos em casa ao ouvirmos o repetido “sejam bem vindos”! Os dedos dos nossos pés, sentem bem a madeira gasta e pisada do suor e do cansaço daquela gente. Sentimos o chão tão doce e polido nos pés… sentimos a plenitude do momento.

Ali reunidos, ia-se falar da Vida, da comunidade, dos problemas, em desabafos, em alegrias que persistem neste pedaço de céu ou inferno. Não sei como lhe chamar ainda.

Depois da partilha da vida, procuram na Palavra soluções, caminhos para as coisas da vida que vivem e que sonham.

Religião com sentido

Aqui, a religião serve mesmo para alguma coisa de muito concreto e o Amor transparece na vida desta gente que pouco tem de seu materialismo. São pobres mesmo, os pobres dos pobres.

E com eles descobri o elementar suporte da Teologia da Libertação do Brasil dos Sem Terra, ali, num barraco cheio de gente que mal sabia ler e escrever, aprendi uma coisa muito bonita. Abrindo os olhos à diferença, percebo que esta gente tem uma espiritualidade ancestral muito profunda, e, ao mesmo tempo, a realidade física sendo muito pobre e sofredora, dá ingredientes para as seitas obterem o dinheiro, o pouco que as pessoas possam ainda ter. Pregam que temos de sofrer muito na vida e rezar muito a Deus, pagar a Deus com dinheiro para um dia ganhar o céu e beijar a felicidade. Mas agora… agora sofrer e pagar. Aproveitam-se das pessoas e da sua bondade, da sua candura.

A beleza e o desafio que a Igreja Católica propõe é a libertação do sofrimento, da pobreza, que dará a felicidade… mas já hoje, já agora! Jesus viveu mostrando o Reino dos Céus já aqui, para o agora e sempre, e não só para depois! Temos é de chegar a Deus; e isso é simples para as pessoas que aqui estão na mesma sala que nós.

Pobreza gera solidariedade, solidariedade gera a graça, comunhão, paz… Destas, a Graça liga-nos a Deus, Deus é a Graça suprema, e nesta Graça sabemos que podemos falhar, podemos errar, mas que há Alguém que nos carrega ao colo, que estamos salvos por Ele, se tivermos consciência disso.

A Graça embala do Mundo

Ali, naquela salinha, com gente sentada em cadeiras, no chão, eu percebo que, por mim, nunca chegaria a lado nenhum, mas que também não é preciso, pois pela Graça somos levados pela mão com o maior carinho do Mundo! Chegando à Graça, chegamos a Deus, se chegamos a Deus, estamos libertos da opressão, da pobreza, da violência, de todo o mal que assola este bairro que não chega a ser uma favela sequer.

Libertação não tem nada de política. Aqui, social quer dizer comunidade; na Europa social quer dizer comunismo. Aqui, luta quer dizer empenho, projecto, sonho… na Europa quer dizer outras coisas… É preciso lavar os olhos para entender a América Latina e a pureza dos seus sonhos e a legitimidade da sua paixão por Jesus e pelo que Ele viveu e provou.

No andar da noite, chocou-me imenso a referência que, na minha pequenez e insignificância, ouvi, como todos, um problema que dilacera a esperança e escurece as veias de muitas mães.

Os gangs do bairro. A Escola dos Salesianos está no meio do campo de batalha. O barreiro, onde antes era lama, e a Pedreira. Os miúdos dos Gangs enfrentam-se, matam-se mesmo. São putos mais novos que eu. Há dois dias apenas, mataram um. Em Janeiro passado, mataram o filho da Dona Isabel, uma senhora pequenina que se sentava ao meu lado na roda apertada da sala.

Chocou-me e doeu-me a frustração, o desespero das lágrimas daquela senhora. Senti ali a incapacidade angustiante de quem não pode fazer nada… Será que podia? Será que entenderia o que aquela senhora estava a passar? Não, julgo que não, que nunca perceberei enquanto não for pai.

A Dona Isabel sentia-se dorida, confusa. Achava-se pecadora, porque tanto rezava na inocência da sua fé e aquela tragédia aconteceu na mesma. Acha-se pecadora, porque se não Deus protegia. A sensação trespassante que me invadiu ali à frente daquela senhora, pequenina, com um rosto de dor e revolta, a chorar à minha frente, não a posso descrever. Foi uma sensação de vertigem de quem cai e não pode fazer nada para parar.

A juventude não tem escola, as pessoas são sem terra que vieram de outros lugares, onde perderam o seu sítio, as suas plantações de onde tiravam o que comiam e ganhavam. Fogem para as cidades à procura do sonho da prosperidade; mas gente pura, gente da terra, não tem como trabalhar nas burocracias e trabalheiras técnicas da dita civilização. Não tendo emprego, cresce a cintura de pobreza à volta das cidades, as periferias pobres grassam, o desemprego, a miséria levam à violência, que não leva a mais lado nenhum. É um beco.

As autoridades não fazem nada, o mundo não vê o que se passa; e esta é, por isso, a pior das guerras: ninguém as vê, ninguém as sente. É uma guerra sem nome a dos gangs, a dos filhos desta gente boa, mas que não tem mãos para segurar a revolta que sente.

Gente que não tem nome sequer. Não são refugiados, não sofrem guerras militares, não é gente que não lute pela vida, não é gente de má fama, não são parasitas gratuitos, não têm associações de defesa, não aparecem na televisão, os políticos de reacção barata não falam deles nos intervalos do parlamento. Esta gente não existe, não tem outro nome que o de Ninguém. Chamam-se Nada e Ninguéns, assim como nós somos Manuéis e Joaquins. A maior pobreza, a mais miserável é isto: a angústia de não ter um Nome nem um lugar no Mundo.

Este é o meio onde estamos e trabalhamos. É por aqui que vamos escutando e falando. Temos falado de Portugal, de África, das Missões e da pobreza de lá. Temos partilhado olhares e sorrisos. Estranho a sensação de lhes falar do que vi por África… Quem raio sou eu para lhes falar de fome, de necessidades, de pobreza?

São eles que nos ensinam a nós, são eles que nos abrem os olhos, o coração, as mãos e a cabeça, para compreender o Mundo e nunca mais regressar à indiferença.

Aqui, seguem só algumas impressões do que está a ser este tempo em Missão, segue a história de uma senhora, uma no meio de tantas, que anda curvada na rua e que ninguém conhece neste infinito Brasil de tantos contrastes, de tanta injustiça, de tanta força, que apesar de tudo continua a caminhar e a florescer. É também a história desta Igreja que luta sempre ao lado de quem mais precisa e mais sofre, sempre com a mesma arma infalível: Jesus Cristo, sofreu isto tudo na pele também… mas lutou, acreditou no Amor e deixou que o matassem sem se calar nunca… e imagine-se… está vivo, está em Graça… livre!

Pedro, Paulo e Ana Laura