A Árvore de Zaqueu Ao chegar uma antiga diligência, o «ar» de quem vinha lá dentro podia dizer muito sobre quem era tal gente…
Os passos excitados das «visitas pascais» (ou «compasso»), pelas ruas ou pelos montes, parecem anunciar: vem aí gente nova – e tem bom ar!
Mas uma aragem inquietante. Já os evangelhos falam de gente apressada, de perguntas, de contradições, de medos, de experiências estranhas, de suspiros de alívio…
E a personagem principal deixa-nos de olhos esbugalhados: rodeado triunfalmente por uma guirlanda de rendas e flores… aparece Jesus crucificado!
É bem o símbolo da condição humana: a vida é mistura de prazer e dor. Mas agora, surge uma promessa cheia de optimismo: na linha do mais profundo desejo do ser humano, a «vida imperfeita» desabrocha em «vida perfeita», pondo a render o próprio sofrimento e morte. Uma aragem de novo mundo, que traz seiva nova às nossas alegrias, que nas próprias tristezas se vão enroscar e crescer e florir.
Porém, no tempo de Jesus como hoje, haveria e há consciência do que está em causa? Os «crentes» não andarão a querer persuadir-se de que a morte é apenas uma «peripécia» da vida? Não andarão a fugir deste mundo, onde queremos (e devemos) gozar o nosso modo de existir?
A aragem diz-nos que Jesus não foi aniquilado pela morte. E diz-nos que homens e mulheres normais fizeram a experiência da «nova aragem» (a «ressurreição» de Jesus não pode ser comprovada historicamente, mas já se pode comprovar a seriedade intrínseca destas experiências, pelos tempos fora).
A «carruagem» continua a inquietar os seres humanos, até porque muita gente ignorante ou comodista não aprova novas maneiras de ver a realidade e de viver.
Se temos fé em alguém, é porque apreendemos que essa confiança não só é razoável como sobretudo dá sentido à vida (por isso diz S. Paulo: «se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé», 1 Coríntios 15,17). Ao fazer-nos bem, ao contribuir activamente para a felicidade no mundo, a fé religiosa mostra o dinamismo que possui.
Em vez do ar pesado de condenados à morte, ganhamos uma aragem que harmoniza Deus e a humanidade. Deus deixa de ser «estraga-vidas», empecilho para a inteligência e afectividade, para ser o «duplo» nas nossas aventuras.
O discurso de Pedro anuncia esta experiência de integridade do ser humano, em que se afirma o valor da vida de cada qual. A consciência das falhas («pecados») torna-nos capazes de reconhecer perante os outros o mau procedimento e que estamos dispostos a ter cada vez mais «bom senso» (e por isso, todos têm que ser capazes de perdoar «até 70×7» – ou seja, sem traçar limites mas também sem fazer vista grossa ao que está mal feito).
É claro, não falta quem use perfumes inebriantes para drogar os que acorrem à novidade. «Pelos frutos os conhecereis», alerta Jesus. Se o ar não se torna mais respirável, se não sentimos um fôlego novo para nos dedicarmos à actividade neste mundo, é porque a carruagem traz gente falsa.
Mas Jesus não deu um código de leis para o que é permitido ou proibido. Tinha tanta fé na Humanidade, que apenas quis libertar o desejo universal de ser feliz – que só é bem sucedido se fazemos os outros felizes.
Por isso, a Páscoa é sempre um dia bonito. Então naquelas terras em que a «visita pascal» é um conviver feito de palmilhar caminhos com cheiro a terra e a flores, não é possível acompanhar a cruz engalanada sem respirar vida, amizade, saudade e alegria.
Manuel Alte da Veiga
