Veiros inaugurou museu de Arte Sacra

“Estimar, guardar, conservar o que os nossos antepassados nos deixaram é um dever, mesmo que isto custe dinheiro. Penso que o povo de Veiros se deve orgulhar pelo que tem como património que nos deixaram os nossos antepassados”, afirmou Pe José Henriques da Silva, na inauguração do museu de Arte Sacra de Veiros, no dia 25 de Novembro.

O Museu Padre José Henriques da Silva – assim se chama o museu, por insistência dos paroquianos, apesar da resistência do pároco (entretanto o Pe José Henriques saiu de Veiros e assumiu a paroquialidade o Pe Tomás Afonso) – reúne pinturas, alfaias litúrgicas, imagens, paramentos, entre outras peças de valor artístico, religioso, cultural e histórico. Entre as peças de grande valor artístico, está um quadro de Nossa Senhora da Conceição, do séc. XVII, que quase ia parar ao lixo (ver texto em caixa). Já o “Rol dos Confessados”, um conjunto de livros onde se registava quem se confessava e comungava cada ano, e que foram descobertos quando se reparavam uns armários, tem grande valor cultural e histórico. “Estes livros – afirmou Pe José Henriques durante a inauguração –, para quem quer fazer um estudo sobre as populações de cada freguesia tem um interesse muito grande. Como no séc. XIX toda a gente nas aldeias se confessava e comungava uma vez no ano, estes dados são muito rigorosos sobre a população. Tem no fim um apanhado geral de quantas pessoas havia em cada terra”.

Parte das peças em exposição foram alvo da intervenção de Catarina Silva. Durante alguns anos, esta especialista dedicou-se à recuperação, conservação e restauro. O museu acolhe ainda peças como um oratório e uma cómoda, que “não estavam a ser aproveitadas em casa de particulares”. “Esperamos que vários outros objectos possam ser vistos no museu, oferecidos por particulares”, afirmou Pe José Henriques.

O museu tem como curador Victor Bandeira, que “desde a primeira hora se empenhou, quer no cortejo para angariação de fundos em que afinal todo o povo participou e foi muito generoso, quer nos trabalhos que se foram fazendo”, afirmou o antigo pároco de Veiros. Victor Bandeira, jovem licenciado em Biologia, tem ainda outra missão em mãos: continuar e concluir o inventário, isto é, fotografar, medir, apontar características, etc., das peças que estão na igreja e nas capelas da freguesia.

O museu, funcionando nas divisões anexas à igreja matriz, custou cerca de 20 mil euros. Parte desse dinheiro foi angariado através de um cortejo, em Agosto de 2004, que mobilizou os veirenses e rendeu mais de 8 mil euros. Os principais gastos, até agora, foram na recuperação de peças (13 mil euros), nas obras (2 500 euros) e no mobiliário para expor os objectos (1 700 euros).

O Museu deverá estar aberto duas vezes por mês, em horário que será anunciado em breve, mas Victor Bandeira presta-se a mostrá-lo desde que se combine previamente a visita. Durante os dias em que se encontrar aberto, o Museu terá sempre algo diferente para ver, conforme afirmou o curador ao Correio do Vouga: “Procurar-se-á ter sempre uma novidade para expor, a fim de criar uma certa apetência a todos quando queiram visitá-lo com alguma regularidade”.

“Não se põe nada para o lixo”

«Quando no ano 2000 tomei conta da paróquia de Veiros, encontrei dentro de uma caixa 9 ex-votos do Senhor da Ribeira. Como eram de madeira, verifiquei que alguns estavam cheios de bicho, que ia destruindo, quer a madeira, quer a pintura. Alguns apresentavam mesmo uma grande quantidade de farinha à volta, sinal de que o bicho estava em franca actividade. Havia várias outras coisas, como os castiçais que apresentavam também o mesmo estado de destruição pelo bicho. Aparecia também um quadro encaixilhado, mas não se sabia se a tela tinha alguma coisa, em virtude do pó se ter acumulado ao longo de vários séculos. Havia um outro caixilho que parecia ser de um outro quadro, mas não havia vestígio de haver mais nenhuma tela. Fomos perguntando se mais ninguém sabia da pintura do outro caixilho. Disseram que talvez a Sr.ª Armanda soubesse onde estava. Uns tempos antes, quando se andava a fazer limpeza, apareceu uma espécie de serapilheira enrolada, partida aos bocados. Ainda alguém disse para se pôr ao lixo. Foi mesmo a Sr.ª Armanda que disse para quem fez a pergunta: “Não se põe nada para o lixo”. A dita serapilheira era a tela do caixilho a que fiz referência acima. Passados dias apareceu. É um quadro belíssimo de Nossa Senhora da Conceição, que deve ser do séc. XVII, tendo à volta de 300 anos. Por pouco que ia mesmo para o lixo.

Havia um Menino Jesus com uma perna partida. Era necessário levá-lo ao “ortopedista”, por causa da dita perna partida. Mas o “ortopedista”, que também era “costureiro” descobriu que por debaixo de uma roupa de mau gosto, de cor vermelha, já muito desbotada, havia uma outra roupa e esta era dourada, tendo além disso punções variadas. Quando descobrimos que o Menino era dourado, tratamos de lhe tirar a roupa velha para poder cantar-se: “O meu Menino é d’ouro”… Foi de facto com uma pinça, que aos bocadinhos, se lhe tirou a roupa de mau gosto…»

Excerto das palavras proferidas pelo Pe José Henriques da Silva, a quando a inauguração do Museu de Veiros.