A possibilidade de exprimir sem peias o nosso pensamento é, por princípio, um bem. Tê-lo alcançado foi seguramente um dos benefícios que nos trouxe a mudança de regime. Estimá-lo e defendê-lo é um dever cívico a não descurar.
Todavia, importa também reflecti-lo. Esse, como qualquer direito, entra no concerto de muitos outros direitos e deveres. Só nesse contexto pode ser pensado e vivido de modo correcto.
Pensemos que, por exemplo, o segredo profissional, o segredo de justiça, o segredo de estado, qualquer deles condiciona fortemente a concretização da liberdade de expressão. E este condicionamento da exposição da verdade é indispensável para uma vida social sadia e harmónica.
Todos percebemos o lamaçal em que chafurda a nossa vida política e social pela falta de ética, não direi na regulação, mas na prática desta liberdade fundamental. Não há limites de privacidade; não há possibilidade de regulamentação do necessário e conveniente, para que sejam respeitados os parâmetros do respeito pelas pessoas e pelas instituições… Confunde-se a busca e apresentação da verdade com a possibilidade unilateral de tudo “assoalhar”, sem perspectivar o alcance construtivo do que se pretende difundir.
Liberdade de expressão confunde-se, hoje, com facilidade, com a possibilidade de dizer ou publicar tudo o que apeteça, mesmo que só com aparência de verdade, independentemente dos efeitos nefastos e injustos que possa acarretar.
A máxima cristã – fazer a verdade na caridade – é o caminho de um exercício nobre desse direito fundamental, porque o enquadra no cerne da sua razão de ser: contribuir para fazer crescer serenamente, seja pelo aprovar seja pelo corrigir, aquele ou aqueles sobre quem se projecta o seu efeito.
Não seria despiciendo, em tempo de renovação interior, acertar os nossos critérios éticos nesta matéria. É bem certo: quem diz o que pensa, nem sempre pensa o que diz; e quem pensa o que diz, nem sempre diz tudo o que pensa. A verdade tem modos e tem oportunidade. Fora disso, pode ser tremenda injustiça ou mesmo perverter a sua limpidez construtiva. Regulamentar a comunicação não é o mesmo que censurar a livre expressão.
