Os dias da Paixão do Senhor revelam-nos, sem qualquer espécie de reserva, o drama da fragilidade humana transformada pela entrega redentora do Filho de Deus por nós. Por um lado, o Mestre vive até ao limite a consciência e a experiência do vaso de barro que é o suporte humano. Por outro, a Sua entrega total ao projecto do Pai, sustenta uma fidelidade única, que O faz “páscoa”, isto é, passagem, para Si e para todos nós, do limite para a Vida em plenitude.
Todos os cristãos, os presbíteros de um modo especial, designadamente em ano sacerdotal, precisam de contemplar o Mestre nesta perspectiva. Segundo o pensamento de António Bravo, não somos super-homens. “De modo algum se adequam ao sentir da história de Deus com a humanidade aquelas correntes espirituais que projectam arrancar o homem da sua fragilidade”. Assumir esta condição é o caminho da humildade transparente, que nos situará no seio do Povo de Deus com alma de fogo apostólico, a par da consciência dos limites, envolvida numa radical confiança no Espírito que nos habita.
Tal atitude nos despirá de toda a presunção de perfeição alcançada, de toda a expressão de autoridade emanada das nossas qualidades, de toda a sede de poder intocável. Conscientes da nobreza do serviço a que somos chamados, da riqueza salvífica em nossas acções depositada, reconhecemos que não é por mérito próprio que chegamos a esta dignidade, nem pelo mesmo mérito desempenhamos a missão a que fomos chamados. A graça é Graça de Deus. Nós somos vasos de barro – no dizer de Paulo, susceptíveis de quebrar em qualquer esquina, vulneráveis a todo o momento.
É a Páscoa do Senhor Jesus que completa em definitivo a Sua Incarnação. Sem “aprender a obediência pelo sofrimento”, poderíamos desculpar-nos com a Sua distância desta condição que nos marca essencialmente. Foi pela debilidade total assumida por Jesus Cristo que Deus realizou a Sua obra de salvação. É no momento extremo do “fracasso” humano que brilha a força do poder de Deus. É ao expirar no patíbulo da Cruz que Jesus é reconhecido como o Outro por excelência, a fonte da Vida: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus”!
