1 – É fundamental que todos cultivem a verdade, a transparência. Ela não pode ser uma pedra de arremesso, nem muito menos um instrumento de estratégia política, que se joga ao sabor do momento, conforme as conveniências. Só a verdade liberta: a consciência, a memória, o quotidiano… Os indivíduos, as estruturas, só avançam, só desbravam o futuro, quando se envolvem em clima de verdade, suporte indispensável da confiança, que, por seu lado, é o fundamento seguro de toda a relação social.
2 – A cidadania activa reclama o exercício permanente da verdade, da transparência. O mundo da mentira, da corrupção, desiludem, decepcionam, abrem caminho ao desinteresse, semeiam o hábito da omissão, desagregam o tecido social, tornam impossíveis as relações estáveis, as únicas que dão consistência às instituições, desde a Família à Nação, desde a empresa à associação cultural ou recreativa.
3 – Não se concebe, portanto, que um projecto educativo, os processos educativos, o sistema educativo, não assentem essencialmente na verdade, na transparência. As relações na(s) comunidade(s) educativa(s) são o primeiro suporte pedagógico eficiente; não podem, de modo algum, deixar de ser de verdade e transparência – única atmosfera saudável, capaz de empenhar em tarefa comum a diversidade dos agentes educativos, a começar pelo protagonista principal, o educando. É, pois, crucial a educação para a verdade, a educação na verdade.
4 – Entretanto, sem realismo, a verdade não o é. No nosso caso: verdade das contas públicas sem realismo é o mesmo embuste de sempre. Sobretudo quando se arremessa triunfante, como terra para os olhos dos cidadãos, os quais continuam a não ver caminhos de futuro consolidado, porque a falta de realismo das medidas de combate ao défice, porque a injustiça das medidas de combate ao défice, continua a proteger os ilícitos de uns tantos, pesando gravosamente sobre a impotência de defesa dos mais débeis.
5 – Escrevia Santo Agostinho: “O supérfluo do rico é o necessário do pobre. Portanto, possuir o supérfluo é possuir o bem de outrem.” E essa é a grande questão: a verdade das contas públicas não o é, enquanto se não disser o que tem o Estado a mais – o seu funcionamento, os seus privilegiados -, em detrimento dos cidadãos que sustentam o Estado; enquanto aumentar a despesa do Estado, sorvendo mais de metade do PIB, sem que o realismo ponha cobro a supérfluos próprios das sociedades capitalistas, concedendo de privilégio a alguns o que é necessário para dar o condigno a todos!
