As ruas de muitas das nossas terras dão passagem, por estes dias, a manifestações religiosas conotadas com a caminhada de Jesus para o Calvário. Procissão dos Passos, Via Sacra, Autos da Paixão… Um sem número de realizações! E que continuam a atrair e mobilizar multidões, de distintas idades e variadas condições.
É uma torrente de vida, com frequência revestida de demasiado folclore, com tons marcadamente dolorosos, envolvidos de sentimentos de compaixão, convergindo para um calvário carregado de espessas nuvens, onde não brilha suficientemente a luz da entrega gratuita do Filho de Deus por nós, um calvário que não deixa pressentir a pujança de vida emergente dessa aparente árvore de morte que é a cruz.
O realismo da paixão de Jesus Cristo urge que seja lido com olhos novos. Sob o rosto ensanguentado, por trás do semblante crispado pelo sofrimento, importa encontrar o brilho do olhar generoso e misericordioso, a contagiante interpelação a tomarmos também a nossa cruz rumo à vitória, sabendo que o grão de trigo que vai ser lançado à terra não é um vencido que baixa os braços ou depõe as armas do amor, mas é a expressão de quem o assume até às últimas consequências. É por essa razão que o caminho da cruz é o caminho da ressurreição.
Os passos do Mestre são os trilhos a percorrer pelos seus discípulos: o caminho esforçado de quem se enche do Amor do Pai para estar nos caminhos dos seus irmãos com a mesma atitude de Jesus – “o que quiser ser o maior faça-se o servo de todos”. Não é apenas o apelo à solidariedade. É o desafio da beleza da caridade cristã
Não precisamos de chorar por Ele. Choremos, isso sim, sobre a nossa cegueira, os nossos egoísmos, as nossas divisões, as injustiças que criamos… Importa é que nos alegremos com a gratuitidade da presença do Senhor entre nós, que se ajoelha diante de todos os carecidos de humanidade, para lhes lavar os pés, purificando-os de todas as exclusões e reabilitando-os na sua dignidade.
É por isto que todo o manancial de religiosidade popular que percorre as ruas das nossas terras, mais do que olhar para Jesus, deve ser para nos vermos ao espelho da Sua atitude e desenharmos em nós um rosto de serviço incondicional aos irmãos; deve ser para nos tonificarmos na coragem de encontramos a vida na entrega pelos outros.
Como os caminhos de Jesus, são sagrados os caminhos dos homens e das mulheres dos nossos dias, a reclamar esforçados cireneus e corajosas verónicas, piedosos josés de Arimateia, que transformem os caminhos do calvário em subidas esperançosas para manhãs radiosas de esperança!
