Viagem à Terra Santa apontou caminhos de paz

Oito dias na Jordânia, Israel e territórios palestinianos deixaram perspectivas de paz para o futuro no Médio Oriente

De 8 a 15 de Maio, Bento XVI esteve na Terra Santa, numa visita considerada a mais sensível de todo o pontificado, mas que correu sem incidentes, abrindo perspectivas de paz numa terra marcada pela dor, guerra e divisão.

O Papa chamou as atenções do mundo para a situação dos cristãos na região e destacou-se pelas suas tomadas de posição em relação ao conflito israelo-palestiniano, defendendo de forma inequívoca a criação de um Estado independente na Palestina e a necessidade de um reconhecimento universal do Estado de Israel, condenando todas as manifestações de violência, fanatismo ou anti-semitismo.

Quanto às relações entre os fiéis das grandes religiões que reconhecem esta terra como santa, o discurso papal procurou sempre partir da relevância da religião na sociedade do século XXI para depois apelar ao diálogo e à convivência pacífica entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Sob a sombra da viagem de João Paulo II em 2000, o actual Papa soube deixar para a história vários gestos, palavras e imagens, desta vez não tanto junto do Muro das Lamentações, mas no muro da Cisjordânia, que dominou a visita de Bento XVI a Belém – símbolo, como o próprio reconheceu, do impasse das negociações entre israelitas e palestinianos, perante a impotência da comunidade internacional.

Outros momentos marcantes foram a evocação das grandes religiões monoteístas no Monte Nebo (Jordânia) ou na Mesquita de Amã, o encontro no Yad Vashem, com uma clara condenação do Holocausto e de quantos o negam, e a viagem entre a Mesquita da Cúpula da Rocha o Muro das Lamentações, em Jerusalém.

A pequena comunidade cristã não faltou à chamada, abrilhantando uma visita que sofreu com a indiferença de Amã e a obsessão securitária em Israel. Em Nazaré, um convite que é mais um desafio: “Tende a coragem de ser fiéis a Cristo e permanecer na terra que Ele santificou com a sua própria presença”. A visita do Papa foi um claro estímulo para a comunidade cristã – cujo estatuto social, político e económico tem sido cada vez mais afectado –, que ao longo das últimas décadas tem emigrado em massa da Terra Santa, colocando mesmo em risco a preservação dos Lugares Santos para as várias Igrejas.

Na cerimónia de despedida, em Telavive, Bento XVI foi acompanhado por Shimon Peres e Benjamin Netanyahu, presidente e primeiro-ministro de Israel. O Papa passou em revista os vários momentos da sua estadia no país, reafirmando em particular a sua condenação do “terrível episódio” da Shoah.

Falando a israelitas e palestinos, Bento XVI disse ter vindo como seu “amigo” e deixou uma mensagem final: “Nunca mais o derramamento do sangue, confrontos, terrorismo, guerra. Rompamos o círculo vicioso da violência”.

“Seja universalmente reconhecido que o Estado de Israel tem o direito a existir, gozando paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Seja igualmente reconhecido que o povo palestino tem o direito a uma pátria independente, soberana, a viver com dignidade e deslocar-se livremente”, afirmou.

Bento XVI falou da “visão triste” do muro na Cisjordânia e revelou ter rezado por “um futuro de paz”, antes do “shalom” final.

No Domingo passado, já em Roma, Bento XVI disse que “a Terra Santa, símbolo do amor de Deus pelo seu povo e a humanidade inteira, é também símbolo da liberdade e da paz que Deus quer para todos os seus filhos. Porém, de facto, a história de ontem e de hoje mostra que precisamente aquela Terra tornou-se também símbolo do contrário, isto é, de divisões de conflitos intermináveis entre irmãos (…). Pela sua própria história, pode ser considerada um microcosmos que resume em si um fatigante caminho da humanidade”. Para hoje, 20 de Maio, o Papa prometeu um balanço pessoal da viagem na audiência geral das quartas-feiras.

CV/Ecclesia

Reacções à viagem do Papa

“Foi uma viagem histórica”. “Estávamos preocupados no início da visita [por ser uma viagem sensível]”. O encontro com um soldado israelita foi “preocupante”, mas “no momento em que o Papa foi a Belém, nós esquecemos tudo, e ele foi muito bem recebido, como a pessoa mais santa a deslocar-se a Belém”, diz Randa Nabulsi, delegada geral da Palestina em Portugal.

A viagem “correspondeu à expectativa”, mas “não foi histórica”. Bento XVI é “menos afectivo e mais intelectual e teórico” do que João Paulo II, que em 2000 empreendeu com uma viagem “histórica” à Terra Santa. Bento XVI mostrou “ter a palavra certa, mas não a palavra que toca”. Como Papa alemão, na visita ao memorial Yad Vashem, que recorda as vítimas judaicas da II Guerra Mundial, “tinha uma responsabilidade especial”. Talvez por isso, “as pessoas esperavam mais”, afirma Esther Mucznik, investigadora de assuntos judaicos.