Vida partilhada com os sem-abrigo

LIVRO Nos países desenvolvidos, o último degrau da sociedade, a caminho da mais completa desumanização, é ocupado pelos sem-abrigo. Não têm família. Não têm trabalho. Não têm casa. Não têm amigos. Não têm conhecidos. Não têm amor próprio. É a forma mais completa de exclusão social. A economia falhou. A família falhou. A sociedade falhou. O Estado falhou. O próprio falhou.

No nordeste de França e na Bélgica (de Paris a Bruxelas), o casal Michel Collard e Colette Gambiez juntam-se aos sem-abrigo. Não para os ajudar, mas para ser como eles. Partilham dia a noite, de cidade em cidade, a vida dos sem-abrigo. Por detrás dessa atitude estão apelos evangélicos e franciscanos (ele é um ex-franciscano), mas tal não é afirmado aos sem-abrigo.

Há muitas lições a tirar com a leitura deste livro (que é apoiado pela Cáritas portuguesa). Uma poderá ser compreender o que vai na cabeça de um sem-abrigo (talvez a mais importante para quem se interessa pelos pobres e a pobreza). Um parágrafo do livro entre os mil do género: “Certa manhã, vemos caído no passeio um belo pedaço de queijo, que alguém já trincara. Max diz-nos que o recebeu de uma mer-cearia que oferece regularmente restos de queijo, e que foi ele que o deitou fora. Este comportamento é frequente e magoa-nos. Na verdade, é difícil ver alguém desperdiçar aquilo que foi dado. Mas explica que agiu assim, porque tem dor de dentes. Não é uma desculpa com-pletamente falsa, pois ele tem uma péssima dentadura, e o queijo estava duro. Contudo, há razões mais profundas subjacentes a esse gesto, razões menos racionais e mais reais, ligadas à psicologia do homem pobre. Sentindo-se mal consigo mesmo, o pobre já não sabe o que quer verdadeiramente: tem fome e não tem fome, tudo ao mesmo tempo. Deitar fora os alimentos é uma maneira de expressar essa dificuldade de viver. Além disso, sente a vergonha e o desgosto constantes de ter de mendigar para viver; está farto de depender a toda a hora da sopa e da fatia de pão. Contudo, parece-lhe indecente recusar a oferta a quem lha dá, embora não deseje verdadeiramente o objecto da mesma: deram-lhe uma sanduíche, quando, secretamente, ele esperava receber dinheiro para comprar batatas fritas… (…) Devíamos ver sempre nestes gestos chocantes o sinal e o grito de uma infelicidade mais profunda”.

Viver do outro lado da barreira permite-lhes compreender melhor os meandros contraditórios dos pobres, mas há uma outra lição, mais desconcertante: não é pobre quem quer; é quem pode (isto é, quem não consegue ser outra coisa). Michel e Colette esforçam-se por ser como os sem-abrigo. Mas não são sem-abrigo, como alguns lhes apontam: “Oh, estás a ver, eles também andam ao lixo, mas estão limpos” (…) “Não são vagabundos verdadeiros; têm os pés muito limpos…” “Continuam juntos nos momentos de prova e miséria, é raro [entre os sem-abrigo]”.

Há muito mais. Mas isso fica para a leitura do livro, com passagens que, se fosse num telejornal, surgiriam com a advertência: “Podem ferir a sensibilidade do espectador”. Mas, se ferirem, é porque ainda não estamos insensíveis de todo.

Obra: Quando o excluído se torna o eleito. Vida partilhada com os sem-abrigo

Autores: Michelk Collard e Colette Gambiez

Editora: Paulinas

328 páginas