Vieira é percursor da dignidade humana

Entrevista ao P.e Alexandre Cruz Alexandre Cruz, padre responsável pelo Centro Universitário Fé e Cultura, defendeu com sucesso a tese “Uma visão pedagógica dialogal na crise na primeira globalização”, na Universidade de Aveiro, no dia 6 de Fevereiro de 2008, precisamente quando se comemorava o quarto centenário do nascimento do P.e António Vieira, que está no cerne do trabalho do novo mestre. O jesuíta “imperador da língua portuguesa”, na célebre expressão de Fernando Pessoa, defensor dos índios e dos judeus, diplomata e missionário, foi um “homem global”, o “primeiro cidadão da comunidade dos países de língua portuguesa”, afirma P.e Alexandre Cruz.

O seu trabalho não foi uma tese sobre o P.e António Vieira, mas nela o jesuíta é apresentado como arauto de um novo tempo, após a primeira globalização… António Vieira é um percursor dos direitos humanos?

A tese não foi sobre única e explicitamente o P.e António Vieira. A visão geral deste Mestrado em Ciências da Educação (Formação Pessoal e Social) tinha como temática “Identidade e Cidadania”. Tendo sido lançado o desafio de assinalar Vieira numa dinâmica de língua, identidade e cidadania, procurámos mais do que nos centrarmos exclusivamente em Vieira, compreender o seu tempo social.

O tempo social de Vieira teve a marca da marca da “primeira globalização”, que resultou dos descobrimentos portugueses e espanhóis, como estudou…

Sim. Nos séculos XV-XVI deu-se uma primeira grande mudança planetária que foi a primeira globalização. Julgo que olhar para esse período será importante para compreender a actualidade. Nesse sentido, aprofundámos as transformações e incómodos da Revolução Científica, com as mudanças de paradigmas que deram a volta, para o melhor e o pior, aos hábitos instalados. Procurámos, também, ler os sinais da esperança, estampados na Utopia de Thomas More, enraizada na filosofia cristã e nos clássicos, especialmente Platão.

Nesse contexto de transformação surge então Vieira…

Vieira surge numa época muito difícil, tanto na Europa como no Portugal de seiscentos, e acaba por ser o inaugurador do paradigma da dignidade humana, num mundo em profundas convulsões de intolerâncias e escravatura. O Brasil estava num processo de estruturação humana e Vieira deu a vida para dizer que «vós escravos também estais inscritos nos livros sagrados». Ou seja: a afirmação até às últimas consequências da dignidade humana no Brasil, para além, naturalmente, de em Portugal ele procurar abrir muitas portas motivadoras e comprometidas com um país a consolidar [saído dos 60 anos de domínio filipino]…

Temos vantagens, hoje, em conhecer a vida e obra do P.e António Vieira?

Muitas vantagens. Para a História, é um dever conhecer. Para a Linguística, é obrigação cultural. Em termos humanos, Vieira é, com Las Casas e Montaigne, precursor da dignidade da pessoa humana, preferindo a lei natural à emergente razão de Estado, as pessoas às instituições. Em termos de evangelização, Vieira tira-nos da passividade e puxa-nos para o confronto como enriquecimento comum. No referente ao diálogo inter-religioso, toda a sua defesa dos cristãos-novos abre-nos a novas formas de entendimento. Naturalmente que Vieira é multifacetado, como dizem os especialistas, “polifónico”, plural.

Na biografia dessa personalidade multifacetada que é Vieira, o que destacaria?

Destacaria talvez a sua componente viajante. Atravessou naquela época sete vezes o Atlântico! Como escritor, deixou 200 Sermões e 700 Cartas, mais os escritos proféticos. Destaco a sua condição de peregrino, de “errância” da condição humana, como diz Eduardo Lourenço. Também mais um aspecto: o seu tempo era “sombrio”, de pessimismo antropológico. Ele soube dar conteúdo à “palavra”, usando-a como forma de transformação social e na liberdade da verdadeira fé em Jesus Cristo… Eis, afinal, o desafio de sempre da evangelização!

O Pe António Vieira é o primeiro português global?

Dos estudos sobre a Utopia renascentista de Thomas More, escrita em 1516, sabemos que os dois livros que compõem a obra apresentam um português como o relatador da ilha da Utopia, o ideal da convivência humana desta obra, como muitas, enraizada na República de Platão. Esse português tinha como nome Rafael Hitlodeu. “Rafael” remete para a nau da Índia… Parece que esta referência de um português que é eleito para desempenhar o ideal humano nesta grande obra da Renascença tem como base o grande português da época, Damião de Góis, um homem global. Mas, de facto, com António Vieira, na época da massificação das navegações, acontece algo de novo. Primeiro, verifica-se que ele tanto viaja nos barcos como percorre a Europa política; depois, procura uma configuração viajante que supera os meros relacionamentos político-económicos. Vieira procura construir comunidades, no Brasil e em Cabo Verde. Poderemos mesmo dizer que é o primeiro Cidadão da CPLP! É homem global, até pelas suas palavras: «Para nascer, Portugal. Para morrer, o mundo!»

Como conseguiu conciliar o trabalho do Centro Universitário e a colaboração que dá na paróquia de Aradas com a disponibilidade para ler e investigar?

Bom, neste “regresso às aulas”, como formação permanente, como costumo dizer, o trabalho foi realizado nos cantos do tempo. Neste ano e meio curricular e de tese, o trabalho foi feito pela noite dentro; enfim, normalmente após todas as reuniões e os variados trabalhos pastorais. Só dessa forma é que navegaria em paz, ao correr da pena…

Teve como orientador o Doutor Carlos Meireles Coelho…

Sim, foi o Professor Carlos Meireles, tendo havido muitos outros professores que passaram pelas aulas do ano curricular. O mestrado demorou dois anos: um primeiro curricular; e um segundo de elaboração da tese. O Professor Carlos Meireles foi o orientador, fundamental numa perspectiva de rigor, método, em ordem a não se dizer tudo aquilo que se pensa e quer mas a “orientar” metodicamente o pensamento. Este é um dos aspectos fundamentais de qualquer trabalho científico. Para além da componente académica, a partilha de ideias e o enriquecimento foram muito estimulantes.

Qual a maior descoberta ao fazer este trabalho?

Destacaria várias:

– a necessidade de compreender o tempo da globalização, das transformações de sociedade que vivemos e que vêm dar a volta às formas habituais. Neste sentido, como permanecer nos essenciais e mudar os acessórios?

– o regressar ao passado das grandes transformações científicas e das comunicações que, quer queiramos quer não, são impulsos impressionantes de mudança de paradigmas pessoais e sociais;

– o entender que a expansão e euforia da globalização teve posteriormente a sua profunda crise. Neste aspecto, foi muito interessante encontrar algumas obras “esquecidas” dos anos trinta e “cinquenta”, anos pós-guerras europeias, que na crise europeia qualificam o séc. XVII como “crise de consciência europeia”;

– o ler por dentro a Utopia que aliou a filosofia cristã ao pensamento clássico;

– o procurar esboçar um “conceito educativo” sobre o diálogo.

O diálogo, “a pedagogia dialogal”, como refere no título, é importante?

Fundamental. Estamos a viver o Ano Europeu do Diálogo Intercultural e também os 60 anos da declaração dos Direitos Humanos. A certa altura deparei-me com isto: por que é que quase todos os grandes momentos de indecisão e de opção do pensamento humano tiveram grandes “diálogos”? Os diálogos de Platão, Galileu, Thomas More (e, de certa forma, de Espinosa, Locke… tenho uma colecção de quase 20 diálogos em momentos de fronteira) marcam as suas épocas. E depois, há Vieira, que este ano celebramos e que assumiu o diálogo como construção de educação comunitária, naturalmente tendo como raiz existencial o diálogo com o Deus vivo! Esse Deus-amor que sempre desinstala o que está instalado!