A entrevista em questão é, por norma, da melhor qualidade. A riqueza humana, cultural e espiritual dos entrevistados, bem como a profundidade e longo alcance de vistas do entrevistador, garantem uma hora de formação para os ouvintes.
Vemo-nos rodeados de tantos problemas, que cedemos facilmente à tentação de conceber a vida e olhar o Mundo como uma interminável noite de densas trevas. Apesar do sol que nos indica o traçado de veredas e caminhos, muitos tacteamos inseguros e receosos os percursos do dia-a-dia.
Era um artista, invisual, o entrevistado dessa manhã. Foram tantas as coisas lindas, tão certas e interpelantes, tão natalícias como a surpresa de um Deus que se faz Homem, que não resisto a fazer delas a mensagem de Natal.
“Comecei a andar pelas feiras aos sete anos. Entrei uma vez numa igreja… Ninguém me falou de Jesus; mas descobri que Ele era o meu amigo. Tenho em cada terra uma casa, a igreja”… – O encanto de quem descobre a Luz e faz dela o farol permanente da sua vida, sobretudo quando ela mergulhou na escuridão da cegueira. “Tu vês, na escuridão, com uma luminosidade”!… – dizia o entrevistador, com o assentimento pleno do artista, que assim justificava essa visão de um cego.
“O Mundo tem muitas coisas belas! O Mundo está muito mais delicioso do que reconhecemos e dizemos. Os cumprimentos, o braço amigo para ajudar a atravessar a rua, o acolhimento ao espectáculo do cego com a sua guia, a cadela, tão acarinhada por todos, o recurso ao auxílio de um cego para encontrar força interior”… Como é possível um invisual transmitir tanta esperança, discernir tanta bondade, quando nós, os que vemos, não enxergamos dois dedos de optimismo em tudo o que nos rodeia?!
Não foram certamente estas as palavras exactas do artista circense, invisual, que escutei. Mas foram estas e muitas outras as mensagens que delas brotaram. A dupla que recolhi foi para me dizer e dizer aos leitores que aqui reside o essencial do Natal: descobrir que o Verbo Se fez carne para iluminar todo aquele que vem a este mundo – só Ele é a Luz capaz de iluminar todas as trevas e sombras da Humanidade; reconhecer que o Senhor, que veio, vem, hoje e sempre, nas atitudes e gestos de amor fraterno.
A glória mais nobre que se pode prestar ao Emanuel no alto dos céus brota da mais pura vida de irmãos que vivam na terra os homens de boa vontade. E esses são os melhores votos de Natal que cada um pode desejar aos demais.
Gente de olhos sadios, muitas vezes cegos a guiar outros cegos, aceitemos este presente de Natal: a visão luminosa da vida, transmitida por um cego! Santo Natal!
