Visão redutora

Os resultados ficam, as mais das vezes, aquém das necessidades e expectativas. Os dramas – sobretudo com acidentes – sucedem-se em catadupa, com uma esteira de efeitos devastadores naqueles que ficam em dor. Pelo número de vítimas, pela sua idade, pelo contexto do acidente, por outras circunstâncias envolventes, sobram despojos de sofrimento incalculáveis.

Está na ordem do dia oferecer, de imediato, “apoio psicológico”. Os poderes locais, ou outras entidades, disponibilizam “técnicos” para acompanhar os próximos mais vulneráveis das vítimas. Multiplicam-se as possibilidades de emprego para este sector de formados, que nos merecem respeito, embora, valha a verdade, alguns deixem os créditos da psicologia com baixa cotação.

Não considero que esteja mal este cuidado. O que me parece é insuficiente, muito redutor mesmo, considerar que a reconstrução humana passa apenas por uma psicologia “técnica”, que os dramas – às vezes mesmo tragédias! – se curam com algumas artes de fazer com que a pessoa se “sinta bem consigo própria”.

As feridas existenciais não se curam com vernizes psicológicos. As profundidades da psicologia são já um labirinto de difícil acesso e um mundo longe de estar plenamente desbravado. Todavia, o carácter espiritual da pessoa humana é a matriz onde se situa a sua maior capacidade regenerativa. Vezes sem conta, chegam-nos aqueles e aquelas que fizeram o tratamento psicológico, mas cujo espírito continua povoado de interrogações e sofrimento, de angústias e contradições.

Esta é a situação de fragilidade propícia ao crescimento do religioso exótico, da venda do “milagre” fácil, da proliferação de oportunistas “videntes” sobredotados, da acção das “pessoas de virtude”…

Mas esse é também o terreno favorável a uma caminhada espiritual serena e profunda. O confronto com Jesus Cristo, o Servo Sofredor, com a sua entrega total e amorosa por nós, Ele que nos pode compreender, porque passou pelo limite dos limites humanos – a morte… A aproximação ao projecto de Deus para a Humanidade e para cada um de nós, a percepção do sofrimento como caminho de purificação, que não um castigo, a abertura da alma à vida para além da morte, o acolhimento da comunhão fraterna, dos vivos e dos mortos, tudo isso vai reescrevendo a história de cada vida com a integração do próprio drama.

A oração, a sensibilidade ao divino, paulatinamente vão libertando o coração e o espírito de um dramatismo fatalista opressor, que escurece a possibilidade e o sentido da liberdade, desesperando quem não voa nas asas da fé ou da crença. Necessário é este horizonte, para uma regeneração total, ainda que a memória guarde a dor; nessas circunstâncias, ela já não esmaga, antes permite viver com esperança.