Poço de Jacob – 145 Uma vez ouvi um sacerdote dizer que, na Igreja, o que serviu para santificar as pessoas nos séculos passados continua a servir hoje. Imagens, relíquias, peregrinações, adorações, direção espiritual, confissão sacramental, rosário, medalhas e sacramentais, água benta, exorcismos…
Apesar de tudo, há quem diga que tudo isso já está fora de moda. O acolher as pessoas passou a ser regra, o que também é muito bom, claro e essencial, hoje, a par do chamado atendimento de qualidade, muito em voga no comércio e no atendimento público. Anjos, demónios, Nossa Senhora, santuários, vestes sacerdotais, hábitos religiosos, cruzes e cruzeiros… tudo tem sido alvo de um estranho “aggiornamento”, sobretudo depois de uma falsa interpretação da modernidade do Vaticano II.
Ao lado disto, surge o outro extremo, que, por causa da recusa dos primeiros, exalta o valor destas realidades a ponto de esquecer o valor da Bíblia, a hierarquia e o seu magistério. Trata-se de um verdadeiro fundamentalismo católico que tem muitos rasgos de apocalíptico, deliciando-se com o anúncio de castigos e do fim do mundo.
No entanto, nesta secção de espiritualidade, não posso deixar de falar das pessoas a que chamamos “vítimas”. Não são de ontem. São de hoje. Não estão desatualizadas. Fazem parte do edifício espiritual da Igreja, embora a sua autenticidade só se prove se viverem no silêncio da sua condição, na alegria exuberante da fé, na serenidade da caridade exercida, no respeito pela hierarquia da Igreja e na obediência incondicional ao confessor ou ao diretor espiritual. Não existem por quererem sê-lo. Sentem-se convidadas a construir a Igreja em união com a Paixão de Cristo: completar em nós o que falta à sua paixão, como diz S. Paulo, ou sendo trigo que cai na terra para dar fruto. Enterrado, escondido, nos bastidores da história, mas conscientes de uma missão confirmada pela Igreja e eficazes nos seus frutos. Muitas vezes ouvi encontros em que se dizia que cilícios e disciplinas (chicotear-se) já não são do nosso tempo nem da nossa Igreja. Conheço mais de uma dezena de pessoas que praticam essas realidades e invejo o seu equilíbrio mental e de fé. Sacerdotes, leigos, religiosas, em Portugal e em outros países. Pode não servir para mim. Mas por que não para outros que os queiram usar na sua vida espiritual? Assim como o jejum.
Mas as vítimas de que quero falar, têm nome e rosto famosos, as que já morreram, claro, pois as atuais vivem sem que saibamos quem são e podem estar ao seu lado na missa. São pessoas como Padre Pio ou Francisco de Assis, estigmatizados, seja por que processo for, ou seja, mental ou sobrenatural. Uma Teresa Newman, uma Catarina Emmerich, uma Marta Robin e a portuguesa Alexandrina de Balazar. Os Pastorinhos de Fátima, especialmente a Jacinta e o Francisco. Faustina Kowalska. São pessoas que se oferecem a Deus, quando a vida lhes sorria, sentindo-se convidadas por Ele ao sofrimento, não por masoquismo ou por que o queiram, mas por missão, vendo nisso um dom. Sendo o dom aceite por Deus, acabam doentes e a sofrer incrivelmente até à morte. Pode parecer absurdo. Mas uma abordagem séria da espiritualidade católica não os pode ignorar. Assim como muitos se fecham na clausura de um convento, essas pessoas, padres, religiosas, leigos, muitos jovens, vivem uma clausura interior. Não se trata de aceitar um sofrimento inevitável como aconteceu com a maravilhosa Chiara Luce, beatificada há pouco, mas de pedir esse sofrimento como missão. E pouco importa que os outros concordem ou não. Esta vocação existe na Igreja e não está desatualizada, apesar de contestada e desconhecida. Daí a necessidade de ela ser também abordada nesta secção.
As características destas pessoas já as disse: vocacionadas para tal, pedem conselho à hierarquia e obedecem ao seu confessor, nada dizem, a não ser que seja algo de místico como Alexandrina, e diante dos homens mostram-se equilibrados e, sobretudo, alegres. Ninguém os conhece. A sua morte pode ser considerada apenas uma fatalidade. O movimento de Schoenstatt, por exemplo, tem mais de uma centena, em todos os países do mundo, que se chamam Cruzes Negra, e que conta com jovens, casais, sacerdotes, religiosas… Lembro com saudades dois de Aveiro que se ofereceram a Deus pela fecundidade espiritual do Santuário de Schoenstatt da Gafanha: a Irmã Custódia e o P.e Rubens, que morreram de cancro, depois da oferta, e nos legaram uma vida breve mas fecunda de testemunho e da misteriosa eficácia do sacrifício de Jesus. O sacrifício do Redentor não se perpetua somente na missa mas também nos corpos destes nossos irmãos, que por vezes sofrem no espiritual, pois há quem não goze de boa saúde no corpo e sofra a aridez espiritual, sendo modelo disso Santa Teresinha do Menino Jesus com sua oferta à Misericórdia Divina…
Não podemos terminar este artigo, que pode surpreender, sem a nota mais importante: Todos somos chamados a ser vítimas. Como? Com a penitência tão pedida em Fátima, que consiste, sobretudo, segundo palavras da Irmã Lúcia, em cumprir perfeitamente os deveres de cada dia. Ser uma vítima da santificação da vida diária, com a fidelidade às pequenas coisas, santifica e faz de cada um de nós o que o Batismo nos confere: Sermos sacerdotes e vítimas como Jesus Cristo, oferecendo sobre o Altar do nosso coração, diariamente fiel, o sacrifício, em espírito e verdade, que agrada o Pai e salva o mundo.
Está ao alcance de todos. Ninguém vê. Não temos de fazer publicidade. É eficaz. E deve ser acompanhado pela alegria daquele que sabe que tudo quanto faz pode mudar o curso do mundo. Termino com uma frase de Pio XII: “Mistério tão profundo, que a oração e o sacrifício de uns poucos sirva para a salvação de muitos… de todos… do mundo…”
Vitor Espadilha
