Vivência cristã das festas

Pensar a Paróquia A festa acontece na vida, não como algo que vem de fora, mas que brota de dentro. Faz parte da natureza. Está no coração da biodiversidade humana e prolonga-se a todo o universo. Manifesta-se com mil cores. Realiza-se nas mais diversas culturas. Assume formas plurais exuberantes. Expressa a humanidade que há em cada pessoa e procura avivar energias adormecidas. Alimenta o sonho da comum igualdade, sobretudo nas situações de espoliação da dignidade humana, étnica, cultural ou religiosa.

Os momentos de festa pública podem configurar-se a partir de vários elementos: encontro de amigos ou familiares, danças de grupo, canções de mensagem, histórias de feitos memoráveis, risos e piadas, ritos evocativo, trajes e comidas, acolhimento a forasteiros, música e ruas engalanadas, ostentação de insígnias, desfiles e outros sinais públicos de alegria colectiva.

O tempo festivo e a intensidade da festa podem igualmente ser resultado da efervescência de multidões congregadas por algo que as mobiliza interiormente, como por exemplo os jogos de futebol em que os campos se enchem e as claques se animam, as touradas em que se exibe a vitória da inteligência sobre a força, os arraiais folclóricos e culturais, as romarias e peregrinações a locais venerados pelo seu significado histórico e religioso.

A exultação festiva – própria do ser humano e indispensável para o seu equilíbrio emocional e relacional – tem ainda uma dimensão tipicamente religiosa e cristã. Esta dimensão brilha, de um modo único e original, em Jesus Cristo, que veio ensinar-nos a ser integralmente humanos. Tal como nós, tem uma vida normal, cheia de rotinas, ocasionalmente interrompidas por ocorrências familiares ou da aldeia, por saídas a terras vizinhas, por idas à sinagoga ou ao Templo. Tanto no dia-a-dia como em ocasiões especiais, Jesus expressa a sua humanidade de modo exemplar, mas sobretudo na fase culminante do seu percurso, quando é proscrito e morto, confiando plenamente no amor de Deus Pai. De facto, esta confiança “faz a ponte” com a ressurreição, com que é premiado na manhã de Páscoa. Antes havia instituído a eucaristia como memorial de todos estes acontecimentos.

A paróquia é o espaço onde estas dimensões da festa se vivem normalmente com maior expressividade e frequência: nos itinerários da vida de cada pessoa e das famílias, nos festejos colectivos, nas festividades religiosas, nas celebrações cristãs. Constitui o âmbito mais acessível para verificar a qualidade da vida humana, o nível da relação social, a intensidade do sentimento religioso e a idoneidade das expressões da fé cristã. Além de âmbito de verificação, é também campo de acção que muito pode contribuir para educar no sentido da festa, enquanto factor de equilíbrio humano, enquanto elemento de sanidade da vida em sociedade, enquanto afirmação da autenticidade eclesial.

Sem festa, todos ficamos mais pobres e caminhamos para a desumanização. Com festas desvirtuadas, esboroa-se tudo o que de belo e nobre ela comporta e pretende construir: em vez da pessoa integral, da família em harmonia, da sociedade em convivência, da comunidade cristã em celebração jubilosa, surgem a banalização, seja de que tipo for, a brejeirice, de toda a espécie, as rivalidades bairristas, a comercialização até do sagrado e muitas outras coisas que ultrapassam todos os excessos razoáveis.

Ninguém faz festa sozinho, nem por qualquer motivo ou de qualquer modo. A festa acontece quando várias pessoas se juntam porque têm algo em comum a celebrar, de acordo com um certo ritual. Estes elementos são básicos e estão profundamente relacionados entre si. Podem ser ampliados ou reduzidos, mas nunca suprimidos.

Em todo o humano – pessoal, colectivo, religioso, cristão –, há, pelo menos, um vestígio divino, um sinal da relação solidária, uma expressão clara da apetência sagrada pelo transcendente, um desejo de encontro e de comunhão com o Infinito que se torna possível em Jesus Cristo, por iniciativa de Deus Pai. Descobrir e potenciar esta relação faz parte da estrutura da festa que se pretende humanizada. Alicerçar esta relação e centrá-la em Jesus Cristo constitui tarefa permanente de evangelização.

A evangelização das festas surge como um verdadeiro repto pastoral, nobre no seu objectivo, exigente na sua realização. E a paróquia, na multiplicidade dos seus serviços, deve estar nas linhas da frente para lhe dar resposta adequada. Precisa, por conseguinte, de dispor de pessoas que, pela honradez e honestidade, pela fé esclarecida e compromisso apostólico, assumam a cidadania responsável e, sem intolerâncias, mas com dignidade, intervenham nos ambientes seculares. Intervenção mais decidida e esclarecedora deve ser feita nas festas com sentido religioso ou especificamente cristão. Responsabilidade especial, a que se junta a importância da função, recai sobre as mordomias chamadas a ser “ponte” entre as “aventuras” de alguns populares e os comportamentos condignos previstos nos regulamentos assumidos.

As festas populares cristãs, quando vividas segundo o espírito que lhes dá sentido, convertem-se também em fonte de inspiração e de elevação culturais. Realizam funções de inexcedível valor comunitário: congregam e aproximam pessoas, suavizam tendências individualistas, constituem espaços e oportunidades para o encontro e o convívio, reavivam laços familiares e sociais, visualizam um ideal de fraternidade a que os humanos se sentem chamados, ajudam a construir a fisionomia da comunidade, revigoram forças para o “desgaste” da dureza da vida, manifestam a alegria de viver e alimentam a esperança num futuro definitivo de “dias melhores”, celebram a aliança de Deus com o seu povo convocado em assembleia e mandatado para prosseguir a missão na sociedade. A festa cristã tem o seu ápice em Jesus Cristo, feito eucaristia, e pretende ser uma expressão significativa, ainda que efémera, da riqueza humana de toda a exultação festiva.