Viver para os pobres, morrer com eles

Escrevo esta crónica dois dias após a pior catástrofe do recém-iniciado ano de 2010, provavelmente uma das mais mortíferas na história recente da humanidade – um sismo de magnitude 7.0 no Haiti, o país mais pobre da América Latina.

Entretanto, ao pesquisar informações sobre o sucedido, reconheci um nome entre os milhares de vítimas anónimas: Zilda Arns, pediatra brasileira, fundadora da Pastoral Criança, que tinha chegado à capital haitiana no dia do terramoto para dar algumas palestras sobre combate à desnutrição e mortalidade infantis.

Em meados dos anos 70 e inícios dos anos 80, a Igreja Católica, no Brasil, tentava corresponder de forma profética aos desafios do Concílio. Começou, por isso, a estruturar comissões pastorais que atendessem os mais pobres, os mais excluídos. O então cardeal de S. Paulo, Dom Paulo Evaristo, preocupado com os elevados níveis de mortalidade infantil no Brasil, convidou a sua irmã Zilda, médica pediatra, a iniciar um projecto que prestasse atenção às crianças mais desfavorecidas. Em 1983, foi criada uma organização comunitária a que se deu o nome de Pastoral da Criança. Idealizada pela Dr.ª Zilda com o objectivo de ajudar ao desenvolvimento integral das crianças, desde a sua concepção até idade escolar, “promovendo, em função delas, também as suas famílias e as suas comunidades, sem distinção de raça, cor, profissão, nacionalidade, sexo, credo religioso ou político”, rapidamente se tornou na maior organização de voluntariado do mundo inteiro.

Conheci de perto o trabalho da Pastoral da Criança durante os anos que estive em missão no Nordeste Brasileiro. Posso testemunhar os “milagres” que faziam as líderes da Pastoral, na sua maioria mulheres simples do campo, quase sem instrução escolar, que recebiam formação e daí palmilhavam, voluntariamente, centenas de quilómetros por mês, visitando os povoados no interior do “mato”, acompanhando as famílias, orientando-as sobre o desenvolvimento da criança desde o útero materno, sobre o valor nutritivo dos alimentos, alertando para a importância do aleitamento materno, do controle da desnutrição, a obesidade, as doenças respiratórias e as diarreias, generalizando o uso do soro caseiro, medindo e pesando crianças, fazendo a prevenção de acidentes domésticos…

Enfim, graças à visão da Dr.ª Zilda Arns e ao trabalho de milha-res de voluntárias, conseguiu-se que, nas comunidades atendidas pela Pastoral da Criança, a taxa de mortalidade infantil descesse dos mais de 100 óbitos por cada mil crianças, nos anos 70, para os 11 óbitos por cada mil crianças, actualmente. Um autêntico milagre!

Do Brasil o “milagre” internacionalizou-se, primeiro para a América Latina, depois para os países africanos de língua portuguesa e hoje em dia chega a quase trinta países do mundo, mesmo nos distantes Filipinas e Timor-Leste. Por isso mesmo, a própria organização foi várias vezes nomeada para Prémio Nobel da Paz. Quem sabe, o pouco protagonismo político da Pastoral não a tenha impedido de ganhar esse galardão, mas a Dr.ª Zilda, determinada como estava a potencializar o trabalho de combate à mortalidade e à desnutrição infantis no país mais pobre da América Latina, acabou por ter a coroa mais importante de todas: estava junto dos pobres e com eles se identificou tanto que acabou por deixar, junto deles, a sua vida, num fatídico final de tarde, na capital haitiana de Port-au-Prince.

“São sempre os mais pobres que sofrem mais”

Ouvi, como faço regularmente, uma crónica radiofónica do jornalista Fernando Alves, desta vez a propósito do sismo no Haiti. Discorria sobre o facto da pobreza “atrair o desastre” e insurgia-se contra o esquecimento a que são votados os países mais pobres do mundo. Na verdade, muitos de nós nos perguntamos – como a declaração da ONG Oxfam, em Espanha, a que o jornalista fazia referência – “porque é que são sempre os mais pobres da Terra aqueles que sofrem as piores consequências das catástrofes naturais?”. A resposta é clara: porque na maioria das situações, a pobreza torna os povos mais vulneráveis e porque nós, nos países ditos mais desenvolvidos, permitimos que o sistema económico vigente continue a aprofundar a exclusão e a adiar opções que possam trazer mais justiça e igualdade.

Por tudo isto, é necessário aproveitar a mediatização do terramoto no Haiti para agitar consciências, para fixarmos os nossos olhos nos inconformados que, como a Dr.ª Zilda Arns, dão a sua vida para que os pobres sejam ouvidos e para que a sua existência seja mais digna. Há que seguir-lhes o exemplo, já! Pois como disse o seu irmão, Dom Paulo Arns, ao saber da morte da sua irmã: “Não é hora de perder a esperança”.