Voluntariado e emprego

Questões Sociais 1. Para a análise das relações entre o voluntariado e a solução dos problemas de emprego, convirá ponderar que o voluntariado (ou trabalho voluntário) não é um substituto nem um sucedâneo do trabalho remunerado. Deste modo, um voluntário, enquanto tal, nunca poderá ocupar postos de trabalho. E, por outro lado, também não é correcta a prática do trabalho voluntário como solução de recurso para o desempregado à procura de emprego. Também não se pode considerar recomendável o trabalho voluntário de um desempregado numa instituição, como via de acesso a uma vaga que, entretanto, surja. Só a título muito excepcional se poderão admitir excepções e abrir mão destas linhas de orientação, que já são mais ou menos consensuais e estão consagradas na legislação portuguesa.

Dito isto, deve afirmar-se que o desempregado, como os outros cidadãos, tem direito à prática do voluntariado: quer o tenha exercido antes, quer o inicie depois de “cair no desemprego”. Várias motivações, muito pessoais e variáveis de caso para caso, podem estar na origem dessa prática.

2. A prática do voluntariado poderá ter, como efeito, o contributo para a solução de problemas de desemprego? – A resposta é afirmativa, tanto na óptica do trabalho voluntário do desempregado como na da organização sem fins lucrativos em que esse trabalho é realizado.

O desempregado, enquanto voluntário, preserva a sua actividade e competências, pode aumentar e diversificar os seus saberes, através da prática e da formação, e pode alargar os seu horizontes de visão do mundo e de conhecimento de oportunidades de emprego.

Por seu turno, a organização promotora ou acolhedora do voluntário pode, e deve, cooperar com ele na procura de emprego fora dela própria. Tal ajuda pode revestir formas diversas, tais como: o apoio na elaboração de notas curriculares; a prestação de informações; a intervenção junto de entidades empregadoras; e ainda o apoio da organização à criação de micro e pequenas empresas surgidas eventualmente da iniciativa de voluntários.

A este propósito, é surpreendente e deveras preocupante que, após tantos anos de estagnação económica em Portugal, o terceiro sector ou sector voluntário, (sem fins lucrativos) não tenha criado uma espécie de sistema social de criação de emprego, porventura em cooperação com o sistema de crédito e o Estado.

Os nossos antepassados da Idade Média e do séc. XIX foram muito mais criativos socialmente do que nós, apesar de se terem debatido com dificuldades muito superiores às actuais.