“Quem dera que o recluso pudesse dizer de cada um de nós: estive preso… cheguei humilhado e com medo à prisão, e me acolheste com amabilidade, com carinho, sem perguntar-me nada a respeito do delito que havia cometido…”, escreve o Coordenador Nacional da Pastoral Prisional.
Este pode ser um tópico, ou uma pequena amostragem do que se passou na mais universal serra de Aire, no encontro de capelães e visitadores dos estabelecimentos prisionais de todo o País, que decorreu durante dois dias em Fátima. A jornada foi promovida pelo coordenador nacional de Pastoral das Prisões, Pe João Gonçalves.
Iniciou o encontro D. José Alves, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, sob a Presidência de D. Jorge Ortiga, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Estiveram Presentes também D. António Montes e D. Tomás Nunes, que integram a citada Comissão Episcopal.
D. José Alves apontou algumas metas de acção, salientando que este encontro pode significar mesmo uma viragem histórica neste complexo sector das sociedades hodiernas: “Que bom seria que cada recluso que saísse das cadeias fosse também alguém que ajudasse a reintegrar os seus ex-companheiros e não fosse um reincidente.” O prelado defendeu uma atitude de partilha, criticando a tese de que as cadeias se tornam uma escola de crime e apelando a que continue a haver uma boa colaboração entre as estruturas governamentais e as eclesiais que dão esse apoio, dentro de um quadro legal da Constituição da República e da Concordata, na garantia dos direitos de cada cidadão. “Propomo-nos colaborar com o Governo, esperando que, da parte deste, e estamos confiantes, vai haver esta colaboração, criando condições para que a Igreja exerça cabalmente o seu ministério e dê a ajuda que nos é própria neste sector” disse D. José Alves.
O director-geral dos serviços prisionais, Rui Sá Gomes, historiou o mundo das prisões, as de ontem e de hoje, e perspectivou-as num futuro de maior consciencialização humana do recluso e família que sofrem.
Aquele responsável referiu que, “em tempos de mudança, o que se pretende com o tempo de reclusão (…) há-de ser sempre a ressocialização dos detidos. Repressão sem res-socialização, não presta absolutamente para nada; se a resssocialização não é possível em liberdade, muito menos o será em meio prisional”. Daí que a sociedade toda não pode estar por fora desta realidade, desde a família, a escola, os serviços de saúde, as igrejas; aliás, a assistência religiosa está garantida pela lei Portuguesa, bem como a presença de voluntários, que foi reconhecida como um exército enorme de presença desejada e acolhida como indispensável mesmo, e altamente apreciada quer pelo Sistema quer pelos Reclusos; foram até incentivados e estimulados a alargar o seu campo de actuação, pelos apoios que dão, o afecto que repartem, a força que transmitem, o amor, o carinho, a amizade, a esperança e a capacidade de ouvir que manifestam”.
Rui Sá Gomes anunciou que estavam na forja uma série de medidas governamentais a sair a curto e médio prazo, nomeadamente no universo do cancro das drogas mesmo dentro das cadeias.
Outras contribuições importantes foram as dos padres José Maria Carol Félez, capelão da Cadeia de Jovens de Barcelona, que dissecou o tema “ Presença da Igreja nas Prisões: Fundamentos Teológicos”, e Andrés Cruz Barrientos, capelão da Cadeia de Badajoz e delegado da Pastoral Penitenciária na Diocese de Mérida-Badajoz, que falou da organização de uma pastoral diocesana, apresentando o seu próprio testemunho.
O Coordenador Nacional, Padre João Gonçalves, apontou, a encerrar o Encontro, como desejo e necessidade de envolver a sociedade, a urgência da realização de um Fórum, de nível nacional, com forte participação de gente de todos os quadrantes. Com a iniciativa, pretende-se gerar “debate e informação sobre estas questões que a todos dizem respeito e tantas preocupações estão, permanentemente, a gerar entre nós, membros de uma sociedade que se quer adulta, amadurecida, responsável; a boa vontade ou as leis, ainda que boas, não chegam para provocar a urgente mudança que sonhamos e queremos”, disse.
