“Vouguinha” circula no… Peru

Nove das composições da Linha do Vouga circulam agora nos Andes. Adaptaram-se bem à paisagem montanhosa

As locomotivas que deixaram as linhas do “Vouguinha” são agora atracção turística no Peru, circulando num ramal que termina numa das “sete maravilhas do mundo”: a antiga cidade inca de Machu Picchu.

A empresa “Inca Rail”, pertencente ao grupo empresarial Crosland, foi constituída em Dezembro de 2007 e começou a operar em Outubro de 2009, fazendo a ligação entre Ollantaytambo (a última cidade Inca ainda habitada) e Machu Picchu, num itinerário especialmente criado para fins turísticos, sendo o primeiro comboio turístico do Peru.

Tal como acontecia com o “Vouguinha”, que marginava o rio Vouga, o Inca Rail – Experiência Mística está associado a um rio: o Vilcanota, também ele atravessando um sinuoso percurso de montanha.

Foi precisamente a sinuosidade do percurso montanhoso que motivou a opção pelas antigas automotoras da Linha do Vouga, por estarem mais adaptadas a esse tipo de percursos, por serem de bitola estreita e… estarem disponíveis no mercado, uma vez que a CP pretendia vender esse material circulante.

Em 2007, a Crosland adquiriu nove (das 18) locomotivas desactivadas da Linha do Vouga, pelo valor de 760.000 euros, as quais haviam sido construídas na antiga Jugoslávia, na década de 1960. No Peru, as automotoras foram adaptadas para a sua nova função turística, de modo a proporcionarem o máximo de conforto aos passageiros. Exteriormente, foram pintadas com cores que se mesclam com a paisagem, com o objectivo de o Inca Rail (carruagens e linha) se integrarem harmoniosamente no ambiente onde se insere.

Com três viagens diárias em cada sentido, o Inca Rail faz o percurso Ollantaytambo / Machu Picchu em cerca de 75 minutos, enquanto no sentido inverso a viagem demora mais cerca de 15 minutos. A bordo, e para além de refeições ligeiras (confeccionadas com produtos biológicos), os passageiros são obsequiados com diversos tipos de infusões (chás) perfumadas de ervas e frutas locais. Os preços (ida e volta) rondam os cem dólares (em executiva) e os 150 dólares (em primeira classe).

No Peru, nos Andes, foi construída uma linha ferroviária para fins turísticos e adquiridos comboios portugueses. Por cá, a Linha do Vouga, no circuito Sernada/Viseu, que tinha tudo para ser uma atracção turística (paisagem, rio e o próprio material circulante após a devida adaptação), foi desactivada. Até os próprios carris foram retirados.

Cardoso Ferreira