À Luz da Palavra A Palavra deste domingo conduz-nos, de novo, à reflexão sobre a sabedoria que nos vem de Deus. Esta sabedoria é fruto da escuta atenta e reverente da Palavra de Deus e da disponibilidade interior para nos deixarmos confrontar com ela, no que toca aos valores que assumimos e aos sentimentos e atitudes que expressamos. A pessoa “sábia” é aquela que se reconhece tal como é, isto é, frágil e limitada, se coloca no regaço de Deus Pai/Mãe, escuta os seus conselhos, aceita os seus desafios e procura seguir os caminhos que Ele lhe indica. Esta sabedoria vamo-la adquirindo ao longo da nossa vida humana e de relação íntima com Deus. É ela que nos garante a capacidade de fazer boas opções, tendo em vista a nossa felicidade e realização humana e cristã.
O autor do livro da Sabe-doria, donde se extrai a primeira leitura, diz-nos: “Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espí-rito de sabedoria. Preferi-a aos ceptros e tronos e, em sua comparação considerei a riqueza como nada. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz”. No evangelho, Marcos coloca-nos diante de um encontro de Jesus com um homem rico, que dele se aproximou. Este homem tinha grandes e justas aspirações. Queria ser plenamente feliz: Queria alcançar a Vida eterna. Ora a vida eterna não se refere apenas à vida para além desta vida, mas refere-se também à vida de qualidade que começa aqui e agora, dentro do nosso coração. Jesus percebeu a ânsia do homem e, depois de lhe falar da necessidade de cumprir os mandamentos, quis conduzi-lo mais longe na sua relação com Deus, através da pessoa de Jesus. “Vai vender o que tens, dá o dinheiro os pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me.” Era exactamente isto que o interlocutor de Jesus precisava de fazer para ser plenamente feliz, mas como lhe faltava a sabedoria para as boas opções, preferiu retirar-se pesaroso, em vez de seguir a palavra de Jesus, “porque era muito rico”, acrescenta Marcos.
A atitude deste homem foi exactamente inversa à da do autor da primeira leitura. Este considerou a riqueza como nada, comparando-a com o espírito da sabedoria. Aquele preferiu conservar a sua riqueza, ainda que isso não lhe desse felicidade. Não é que os bens materiais sejam incompatíveis com a sabedoria que vem do Alto. Mas há que saber hierarquizar os valores e perceber que os únicos bens que não murcham, nem acabam, são os que se referem à nossa vida de relação com Deus. Todos os outros, desde a beleza à inteligência, da riqueza material ao prestígio, são bens passageiros e muito relativos. Por si só não dão felicidade a ninguém. Esta é uma verdade que muitos de nós esquecemos e que põe em acentuada crise as pessoas do mundo actual. Os cristãos e cristãs que escutam a Palavra de Deus e que deixam que “ela penetre até ao ponto de divisão da alma e do espírito, das articulações e medulas”, isto é, que a deixam penetrar nas suas “vísceras”, com a sua vivacidade e eficácia, como aconselha o autor da segunda leitura, esses cristãos são sábios e, embora neste mundo, vivem já em vida eterna.
Mas, de quantas incoerências somos capazes! Ouvimos a Palavra dominical, mas não a escutamos e, se a escutamos não a seguimos. É arriscado ser-se cristão e cristã a sério! Ser coerente com os nossos valores humanos e cristãos traz-nos críticas e até marginalidade. Porque somos diferentes e minoritários. Estarei eu e tu disposta/o a aceitar o desafio que a Palavra de hoje te faz?
Leituras do XXVIII Domingo Comum – Ano B
Sb 7,7-11; Sl 89 (90); Heb 4,12-13; Mc 10,17-30
