Este tema já anda na minha mente e no meu coração há bastante tempo, pois, por experiência, tenho verificado quanto os fiéis apreciam um pároco sorridente ou as equipas encarregadas de dar informações às pessoas que chegam à igreja. Muitos que vêm pela primeira vez, sentem-se intimidados ou desconfiados e com imagens de Igreja completamente distorcidas. Se encontram um rosto alegre e acolhedor, é o suficiente para desbloquear e despertar a confiança… Decidi falar deste assunto, nesta semana, por quatro razões:
1) A forma como Jesus acolhia os pobres, as crianças e doentes é edificante e modelo para nós…e sinal da chegada do Reino ao meio de nós…
2) A forma como o Papa Francisco tem insistido neste tema é desconcertante, numa Igreja, por vezes, instalada no seu conforto…e distante das pessoas…
3) A forma como o Bispo de Bragança determinou que na sua cidade, um dia por semana, houvesse oito padres a atender pessoas, que precisam de se confessar, pedir alguma ajuda ou mesmo só desabafar…
4) A minha própria experiência em terras estrangeiras e mesmo em Viseu, onde celebro a eucaristia diária e lá estou, sempre hora e meia antes, para atender pessoas que procuram um sacerdote…
Não vou comentar os exemplos do Evangelho, em que Jesus acolhia os mais pobres, por saber que esses episódios são suficientemente conhecidos: Lembremos apenas a parábola do Filho Pródigo- Lc.15; a mulher samaritana – João, 4; a mulher adúltera-João, 8; o cobrador de impostos Zaqueu- Lc.19. Recordemos ainda como Jesus acolhia as crianças,Mt.18, quando os discípulos as afastavam d’Ele; como acolhia os pobres como os 10 leprosos, os cegos e outros discriminados,Mt.9; os próprios fariseus como Simão, Nicodemos e José de Arimateia; os endemoninhados que reconheciam que o Reino de Deus chegara a Israel e reconheciam n’Ele o Filho de Deus… Também não entro em pormenores quanto às variadas formas de acolher as pessoas, nas diversas circunstâncias, pois cada paróquia deverá organizar-se segundo as suas possibilidades e ver as diversas maneiras de viver a proximidade com todos os que procuram ajuda espiritual, psicológica ou até material. Vou falar, de forma genérica, do Papa Francisco, pois, apesar de só ter seis meses à frente da Igreja, já nos deu belos exemplos sobre as formas de acolher…
IGREJA, MÃE E PASTORA…ALÉM DE MÃE E MESTRA…
1)Pelo que temos visto, o Papa sonha com uma Igreja que seja mãe e mestra, mas sobretudo mãe e pastora, capaz e ansiosa de “curar as feridas e aquecer os corações” como o Mestre no caminho de Emaús…
IGREJA, CASA DE TODOS E NÃO SÓ DE ALGUNS “PROTAGONISTAS”…
2)”Que a Igreja seja a casa de todos e não uma capelinha reservada a um grupito de pessoas selecionadas”, exclama o Papa, pedindo que “não se reduza o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade”. “Por vezes a Igreja deixou-se encerrar em pequenas coisas, em pequenos preceitos, esquecendo o fundamental que é: “JESUS CRISTO SALVOU-TE”…” Que os ministros da Igreja sejam misericordiosos, capazes de “acompanhar” as pessoas, tratando-lhes as feridas, tratando de cada uma, sem laxismo e sem rigorismo”. Curar as feridas! Curar as feridas! Insiste o Papa e fazer as coisas de cada dia com um coração grande e aberto a Deus, vendo em cada pessoa a imagem de Deus…
SER IGREJA E SENTIR COM A IGREJA, ESTANDO PRÓXIMOS DO POBRE…
3) Em entrevista recente afirmou claramente a máxima de Santo Inácio: SER e SENTIR COM A IGREJA como totalidade do povo de Deus, pastores e povo conjuntamente. Por isso, vem aqui a propósito, uma imagem que nessa entrevista deixou para nós meditarmos: ”Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Disso falar-se-á mais tarde, depois dos primeiros curativos”…
BISPOS E PADRES COMO MINISTROS DA MISERICÓRDIA
4) Deseja que bispos e padres sejam “ministros da misericórdia”, inclusive no sacramento da Reconciliação, onde não devem ser nem rigoristas nem laxistas para que o confessionário não seja um “lugar de tortura” mas “um lugar de misericórdia”… O Papa, mais que otimista, declara-se homem de esperança, com vontade de operar as reformas necessárias, sem pressas, mas com discernimento, para que possam ser mudanças verdadeiras e eficazes. Ele quer uma Igreja onde o povo seja sujeito, onde devemos caminhar juntos, as pessoas, os bispos e o Papa, unidos, apesar das diferenças, porque esse é o caminho de Jesus.
A.MATOS