D. António Vitalino Dantas, Bispo de Beja, completa em Novembro próximo 75 anos. “já ando nisto há muito tempo”, refere depois de ter começado há 20 anos na Comissão do Ecumenismo, passando depois para Comissão encarregue da Comunicação Social. Atualmente é na Comissão Episcopal da Mobilidade Humana onde, depois de suceder a D. Januário se mantém há alguns anos. Foi com muita simpatia e amabilidade que recebeu o jornal “Mundo Português” na Casa Episcopal da sua diocese em Beja e proporcionou esta entrevista em que demonstra um amplo conhecimento e experiência de vida adquiridos em plena vivência junto das Comunidades Portugueses residentes no estrangeiro e uma visão muito atual acerca dos novos fluxos de emigração e das tendências que ocorrem na sociedade de informação em que vivemos.
Os portugueses no estrangeiro continuam a precisar de ler notícias de Portugal?
Hoje em dia os emigrantes precisam de proximidade. Claro que há hoje outros meios que não havia antigamente. Eu tinha que ir às empresas e falar com os chefes do pessoal e com os emigrantes para ver quais os problemas que tinham, ia à segurança social, à polícia dos estrangeiros ou aos tribunais. Isso punha-me muito a par daquilo que acontecia e escrevíamos sobre isso. Eram temas muito queridos dos emigrantes. Depois a situação mudou e os jornais também tiveram que mudar. Hoje os emigrantes têm todo o dia a televisão portuguesa ligada. Seja na América, seja na Alemanha, seja onde for e podem até saber mais notícias de Portugal que nós, isto se a televisão comunicar. Esta é a ideia que eu tenho da altura, porque mais tarde não acompanhei tanto o evoluir dos tempos. Mas quando vou às Comunidades de Portugueses vejo que hoje reparam mais para os mass media do que leem.
(…) Muitos pais querem que as crianças frequentem a catequese paroquial por causa de aprender a língua portuguesa, não é por causa da fé. É para saberem falar com os avós quando vêm a Portugal nas férias (…)
O D. António é um Bispo muito atento às novas tecnologias e meios de informação?
Eu dedico quase metade do meu tempo de secretaria e é muito, muitas vezes até à uma da manhã, a responder a e-mails quer seja ao nível da Igreja, quer dos emigrantes, seja o que for. E normalmente escrevo mensagens muito completas, normalmente procuro ser original para cada um. É um problema pessoal que cada um põe e é a isso que lhe respondo.
E costuma ler jornais em que formato?
Hoje quase só leio digital, papel já quase não uso. Até a correspondência é digital, imprimo apenas para fins de arquivamento. O único jornal em papel que eu leio é um jornal católico alemão que fazem o favor de me enviar de lá todos os dias. É para mim uma forma de eu continuar a par daquilo que se passa na igreja alemã.
(…) Esta geração já não recorre tanto á Igreja como a geração anterior. Antigamente muitos emigravam, saiam das suas aldeias e viam nas paróquias as suas referências, depois as famílias envolviam-se muito nas missões que ajudavam a encontrar contratos de trabalho para a esposa, para os filhos, ajudavam a juntar as famílias, a conseguir o próprio abono de família, ajudei muitas pessoas (…)
Qual a sua opinião acerca do ensino de Língua Portuguesa no estrangeiro?
Muitos pais querem que as crianças frequentem a catequese paroquial por causa de aprender a língua portuguesa, não é por causa da fé. É para saberem falar com os avós quando vêm a Portugal nas férias.
Hoje em dia, as maiores catequeses de Portugal estão no estrangeiro. Na missa em Genebra, por exemplo, tem cerca de 2000 crianças na missão, todos os dias com catequese. Não há em Portugal nenhuma paróquia com 2000 crianças. O ano passado fui crismar a Zurique e nunca tinha tido uma igreja tão cheia, a maior igreja de Zurique que leva cerca de 3000 pessoas, com tantas pessoas de pé. Os portugueses, sobretudo esta emigração mais recente, que ainda não está muito inserida no meio, recorrem muito às missões.
Aqueles que são mais cultos, com cursos superiores vão menos à igreja, têm menos associativismo linguístico, digamos assim.
Por essa ordem de ideias, as novas vagas de emigrantes frequentam menos a igreja?
Esta geração já não recorre tanto á Igreja como a geração anterior. Antigamente muitos emigravam, saiam das suas aldeias e viam nas paróquias a suas referências, depois as famílias envolviam-se muito nas missões que ajudavam a encontrar contratos de trabalho para a esposa, para os filhos, ajudavam a juntar as famílias, a conseguir o próprio abono de família, ajudei muitas pessoas, até aos bancos. Mas nunca quis enfeudar-me a banco nenhum, sempre estive habituado ao mercado livre e nunca quis o apoio de nenhum banco.
Apesar de estar a aumentar, a emigração hoje em dia é completamente diferente do que há 50 anos. Ainda hoje tive que resolver uma situação de uma pessoa que reside no estrageiro e quer casar em Portugal mas não sabia como.
Quando não há missão, ou as pessoas não estão inseridas nas igrejas locais é difícil. Quando há uma missão por perto encaminhamos as pessoas para lá. Muitas vezes as pessoas emigram por motivos económicos e só quando precisam é que se lembram da igreja, depois são quase como desconhecidos no meio em que vivem.
Normalmente tentamos orientar as pessoas e caso seja necessário enviamos um e-mail para a paróquia local a indicar o contato da pessoa para facilitar as coisas.
Há falta de Padres de origem portuguesa para as missões portuguesas no estrangeiro?
Não há falta de padres, a igreja esta espalhada por toda a Europa, o que há em Portugal é uma crise de vocações e no centro da Europa ainda mais. Por vezes os Bispos escrevem-me a pedir um padre para a missão portuguesa, mas pedem também que fale a língua nativa para lhe poderem confiar uma paróquia. Por exemplo, a Alemanha ou a Suíça têm muitos padres vindos da Índia ou de África. Os Padres indianos são muito humildes e aprendem mais depressa, muitos falam inglês também como é sabido e acabam por ter mais facilidade em adaptar-se. Há muitos padres indianos na Alemanha, no princípio têm que aprender a língua alemã e depois acabam por se adaptar. É cada vez mais difícil enviar Padres portugueses.
(…) Não há falta de padres, a igreja está espalhada por toda a Europa, o que há em Portugal é uma crise de vocações e no centro da Europa ainda mais (…)
Qual a sua opinião da Campanha de prevenção rodoviária “CIRCULE PELA VIA DA DIREITA” promovida pelo “Mundo Português” com o apoio de, entre outras entidades, a Conferência Episcopal Portuguesa?
Na Alemanha, já em 1966, o Cardeal de Mainz que foi meu professor de Teologia, um homem muito famoso, era muito solicitado para conferências na altura, ia a caminho da Baviera, pela autoestrada, num domingo de manhã e circulava pela via da esquerda, mesmo depois de ter ultrapassado, mas manteve-se na via da esquerda quando, de repente, foi abordado por um helicóptero que, por cima dele, através de uns grandes altifalantes o advertiu: – sr. automobilista encoste-se à via da direita e pare no próximo parque por favor! E ele assim o fez.
No parque lá estava a polícia que o avisou de que teria que usar a via da direita sempre que a mesma estiver disponível. Ele contou-me isto, por isso como se vê é uma história que já tem muitos anos, isto aconteceu há mais de 40 anos.
Mundo Português – http://www.mundoportugues.pt/article/view/64299