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A 10 de junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Este ano, pela primeira vez, as comemorações oficiais acontecem também fora de Portugal, em Paris, junto de uma das mais antigas comunidades portuguesas. José Coutinho da Silva faz parte dessa comunidade há 45 anos e foi com ele que a Agência ECCLESIA quis saber como é vivido cada 10 de junho. Apesar da distância, também numa conversa pelo telefone, falar de Portugal “mexe por dentro” e há uma palavra que está sempre presente: saudade.

                                                                                                                                                                                                                                        Entrevista conduzida por Sónia Neves

Agência ECCLESIA (AE) – Que significado tem a comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano com a presença do presidente da República?

José Coutinho da Silva (JCS) – Esta comemoração com o presidente da República aqui em França, além de surpreendente, corresponde a uma tentativa de recuperar o tempo perdido. Tenho refletido sobre os motivos que o terão levado a esta decisão e penso que pode ser entendido como uma maneira de voltar a dar a esperança a muitas pessoas, sobretudo aos emigrantes mais recentes em França, às camadas mais jovens da Nação portuguesa que não encontrou futuro em Portugal e que, para muitos, foi uma esperança perdida. Esta é uma tentativa de dizer que ainda continuamos a ser portugueses e que Portugal, o nosso retângulo, continua a pensar em nós. Eu leio este acontecimento como um voltar a dar a esperança a muitas pessoas que podemos e devemos reconhecer como portugueses.

AE – Os jovens licenciados portugueses foram ‘’empurrados’’ para emigrar… Acredita que esta atitude de comemorar o Dia de Portugal junto de uma comunidade portuguesa emigrante, pode ser considerado um ato de reconciliação?

JCS – Não sei se será de reconciliação, mas uma janela aberta para perspetivas de esperança, isso sim. É evidente que a vida se torna cada vez mais dura para as pessoas. Isto de serem empurrados para fora, por muitas razões mas a maior por necessidade, marca muito e fere muito profundamente a vida… Mas penso que o facto de dizer que foram empurrados e agora há alguém que pensa em nós e o país vai estar focado na nossa realidade, através das televisões, ou outros meios de comunicação social, através dos discursos.

Eu sei que a emigração durante muito tempo foi deixada de lado, sentimo-nos esquecidos, ou incompreendidos, ignorados, tornámo-nos transparentes para o nosso país, mas penso que esta é uma tentativa. Será interessante ver como é que nos podemos reconhecer como portugueses. É evidente que a situação, hoje, com os anos que passam, as nossas gerações são diferentes, os novos que vieram com quem me vou encontrando estão muito revoltados com a situação em Portugal e há outros que têm uma maneira de olhar para Portugal como nós, que viemos para cá há 40 anos. É um mau momento a passar. Talvez possamos voltar a Portugal, mas há muita gente revoltada e, outros, que se foram acomodando a esta vida normal de 20, 30, 40 anos de emigração, já com filhos, netos e, alguns, já com bisnetos aqui nestas terras de emigração. Cada vez mais somos gente daqui com raízes e memória em Portugal.

A saudade ganha uma dimensão muito particular à força de passar os anos aqui em França, mas julgo que pode ser um momento interessante. Conhecendo um pouco do que é a nossa emigração, estes milhares de pessoas estão completamente desligados de Portugal, a não ser pela família. Vê-se isso pelo reduzido número de participação nas últimas eleições (97% de abstenção). Estamos ligados à nossa família, aldeias e festas. Para nós, tudo o que passa em Portugal é uma presença permanente, que vivemos com apreensão. Estamos muito mais ligados aos feitos dos futebolistas e de alguns cantores – nem sempre os melhores que por aqui vêm ganhar dinheiro -, mas há sempre uma ligação sentimental.

AE – Entendo que ainda faz sentido falar em saudade…

JCS – Eu penso que sim. Aquilo que nos caracteriza como povo pertencente à portugalidade são as lágrimas que nos vêm aos olhos quando pensamos em Portugal, quando vemos na televisão acontecimentos que nos chocam, situações difíceis, tudo isto mexe muito cá por dentro. Não estamos insensíveis ao que vive o nosso povo.

Emigração coloca portugueses a explorar outros portugueses

AE – Há cerca de 45 anos, quando foi para França, levava muitos sonhos e desejos. Como é que olha para a juventude portuguesa que agora chega aí?

JCS – A juventude que chega… (suspira) Eu tenho falado com várias pessoas e é curioso que temos dificuldade em reconhecer-nos do mesmo povo. Nós éramos gente fabricada no tempo da ditadura, com um certo nível escolar muito inferior aos que aqui chegam e hoje sentimos que os jovens chegam com a ideia que ‘sou europeu, tenho direitos e reivindico-os’. A nossa maneira de pensar era virmos de ‘orelha baixa’ para nos sujeitarmos a tudo. Talvez a deceção maior e o choque ainda maior é que muita gente chega cá e depois encontra-se em situações difíceis, sujeito a aceitar todo o tipo de trabalho e, infelizmente, e digo isto com muita vergonha, caindo nas mãos de portugueses exploradores que, estando cá há muito tempo, criaram fortuna e se esqueceram de onde vieram.

A emigração é um espaço e um tempo favorável a que cada um de nós se posicione em relação a uma História.

Eu sei de onde vim, procuro um caminho para onde vou e há muita gente que o dinheiro os fez esquecer de onde vieram… Conheço imensa gente nova que chegou cá e caiu nessas mãos. Felizmente que os empresários portugueses não são todos assim mas há muita gente que se aproveita desta novas vagas migratórias e ainda me choca mais quando alguns são considerados empresários de sucesso e até recebem medalhas mas ninguém se preocupa sobre quem se apoia o sucesso deles. É uma linguagem dura mas, infelizmente, é o que vou verificando por cá.

Portugueses ajudam a ser Igreja nestes locais

AE – Os novos emigrantes procuram menos a comunidade portuguesa… e a comunidade católica? Há uma procura de espiritualidade por parte de quem chega?

JCS – A comunidade católica atualmente vai-se situando à parte de algumas comunidades ainda constituídas na região parisiense. Na quase totalidade das dioceses de França, os portugueses que se aproximaram ou que se deixaram aproximar pela Igreja têm uma presença importante na vida das diferentes comunidades paroquiais. Eu vejo, por exemplo, na minha paróquia, em que somos cristãos de 20 ou 30 nacionalidades diferentes e os portugueses aqui, como em muitas comunidades, ajudam a construir a Igreja e a ser Igreja nestes locais. É evidente que ainda há na região parisiense algumas comunidades portuguesas, mas há muito poucos sacerdotes portugueses presentes e, aliás, foi uma norma corrente, nunca houve muitos sacerdotes que pudessem ou que aceitassem vir ou que a Igreja portuguesa quisesse enviar para França. Em cada paróquia há ainda a presença de um punhado muito significativo de portugueses que procuram ter as suas manifestações próprias em volta da Nossa Senhora de Fátima, manifestando e participando nas atividades da paróquia. Penso que muito poderíamos dar mas ainda estamos marcados por uma Igreja em que só consumíamos, não nos era nada pedido, não nos puxava para sermos mais responsáveis. Falo das gerações mais antigas porque as novas gerações vêm marcadas por um afastamento da prática religiosa que não é próprio ao facto de estar em França, mas já o viviam antes de virem para cá.

AE – Há assim algum desejo para este Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas? Algo que sente como emigrante…

JCS – O desejo que posso manifestar é que continuemos a abrir os olhos para as realidades concretas do nosso povo e das pessoas que vêm. Quem emigrou não veio para ser rico mas para “salvar a vida”, ou seja, construir um futuro. As pessoas podem vir com ilusões, esperança mas só tentando abrir os olhos para a realidade poderemos construir este povo dentro e fora do país. Fala-se agora do europeu de Futebol, ‘não somos 11 mas 11 milhões’ era preciso que isto criasse raízes profundas em cada um de nós para que continuemos a ser o que somos, um povo de cabeça levantada no meio de outros povos com outros povos.