A CULTURA CALON (CIGANA) SEGUNDO MYRNA MONTENEGRO (MM)
“À descoberta da cultura calon pela mão dos chaborrilhos(*)”, conferência proferida no Seminário Internacional: Cidadania, Infância(s) e Território, no âmbito da Comemoração do 23º Aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, na Universidade de Aveiro, em 22 e 23 de novembro de 2012.
Fazemos uma síntese do texto, recomendando a sua leitura integral.
MM situa as experiências que partilha, no período entre setembro de 1992 e setembro de 2007, 15 anos que considera “terem sido os mais ricos da minha vida profissional”.
“Desde então, a minha relação com a cultura calon (ou cigana) tem sido através dos amigos e amigas calons que angariei ao longo daquele período”. Foi no âmbito das aprendizagens daquele período que escreveu a dissertação de mestrado “Aprendendo com Ciganos: Processos de Ecoformação”, publicada em 2003 e, 10 anos mais tarde, a tese de doutoramento “Aprender a ser cigano hoje: puxando e empurrando fronteiras”, que MM espera defender brevemente.
MM refere as experiências e vivências que contribuíram para estas descobertas e que se situam “nas margens do sistema educativo, num trabalho sem rede e com paredes de vidro, à margem mas não marginal, pois era conhecido das mais variadas instituições públicas e privadas com quem interagiu” no Centro de Animação Infantil e Comunitária da Bela Vista, em Setúbal, e na animação de rua, de feiras e de mercados no âmbito do Projeto Nómada, desenvolvido pelo ICE – Instituto das Comunidades Educativas, entre 1995 e 2007, na Península de Setúbal e no Alentejo e Algarve. “Neste preciso momento, o que senti ao trabalhar com os chaborrilhos foi uma experiência única que designei de “improvisação educativa” em 2003. “O que aprendi e vivenciei com as crianças ciganas – as chaborrilhas (versus lacorrilhas) – e suas famílias moldou indelevelmente a forma de pensar a educação e porque não dizer também a vida”.
“Costumo utilizar a noção de policromia para explicar o facto de, na cultura calon, tudo estar ligado a tudo e realizar-se quase que em simultâneo, tendo um impacto imediato na construção de laços entre as pessoas e as coisas”. MM define a noção de ecoformação “como sendo a formação indelével que os outros e os espaços públicos exercem sobre nós de modo informal, ou seja, a importância do poder transformador da educação informal no nosso processo de aprendizagem ao longo da vida.” “Na cultura calon, todos educam, todos são modelos, todos aprendem e todos ensinam. Na cultura calon, os mais velhos têm prerrogativas que nós já perdemos e os mais novos participam no quotidiano da vida dos mais velhos, sendo iniciados, por impregnação, às regras de convívio e às atividades comunitárias sem grandes discursos prescritivos. Na cultura calon, a pessoa do chaborrilho é reconhecida e respeitada, porque é-se membro de um grupo sendo-se simultaneamente, uma pessoa única, com as suas especificidades, sejam as dificuldades e sejam as potencialidades. Na cultura calon, os elogios são constantes e as repreensões escassas,… as potencialidades são enaltecidas e as dificuldades são alvo de tratamento especial, pois são os mais velhos que devem ajudar e apoiar os mais novos para que estes as ultrapassem. Na cultura calon, aprende-se fazendo… – elogia-se o grupo pelo sucesso de cada um e omitem-se as suas dificuldades…- mais do que as palavras de circunstância é significativa a presença, ainda que silenciosa, nos momentos importantes da vida, para partilhar sofrimentos e alegrias.”
“Na cultura calon, é-se avaliado pela sabedoria demonstrada na gestão dos conflitos (noção de justiça muito apurada), pela capacidade de tolerar as insistências dos chaborrilhos, pela coragem de enfrentar, de peito aberto, um desrespeito, demonstrando valentia e bravura, sem calcular os prejuízos pessoais e solidarizando-se com os mais fracos e injustiçados…; a arte é valorizada…, a criatividade, o improviso e o desembaraço são avaliados como competências a trabalhar” e que revelam “a capacidade de adaptação constante, ou seja, de inteligência prática”. “Estas crianças e suas famílias ainda guardam o que nós já esquecemos, e, presentemente, gostaríamos de recuperar. Então, saibamos escutar e ler nas entrelinhas o que estas pessoas têm para nos ensinar: “aprender com o outro e com as situações, ao longo da vida, e aprender a apreciar os sentimentos e emoções que nos unem eque dão sentido à aventura do ser-se humano…”.
(*) Chaborrilho significa criança cigana traquina, termo utilizado para repreender uma criança cigana (chaval).