Síntese do artigo de Mirna Montenegro (MM) na revista Diversité 159 (Dez 2009)
A ECO-FORMAÇÃO OU UMA ALDEIA DE ASTÉRIX EM PORTUGAL
Síntese do artigo de Mirna Montenegro (MM) na revista Diversité 159 (Dez 2009)
Fomentar um clima de bem-estar no sistema educativo permitiria, sem dúvida, reduzir a ansiedade, baixar o nível de violência em geral e inverter a lógica do insucesso.
MM, Coordenadora do Projecto Nómada, diz que os ciganos foram sistematicamente rejeitados ao longo da história. Muitos foram deportados para colonizar a África e o Brasil. A língua romani inicialmente foi proibida sob pena de prisão, obrigando os seus locutores a falarem o calo, que é um misto de romani e de castelhano e era protegido escondendo-o e que, por isso, nunca foi ensinado na escola. É apenas depois de1974, com a revolução dos cravos, que os ciganos são reconhecidos como cidadãos de pleno direito. De todas as maneiras, eles fazem parte da paisagem humana portuguesa e contribuem para o património histórico, económico e cultural deste país ao longo de mais de 500 anos.
Antes da introdução do RSI, há 13 anos, os ciganos portugueses viviam das colheitas sazonais e do comércio ambulante. Após a adesão de Portugal à CEE, eles foram progressivamente substituídos pelos trabalhadores do Magrebe e dos países de Leste, enquanto o comércio passava para as mãos dos Asiáticos. Rapidamente os ciganos passaram a representar 4% dos beneficiários do RSI. A partir de 1996, surge um novo organismo o Alto-Comissariado para as Minorias Étnicas (ACIME) que se tornou Alto-Comissariado para o Diálogo Intercultural (ACIDI), onde existe um gabinete que trata dos assuntos sobre os ciganos.
Quanto à questão do acesso ao ensino, antes da introdução do RSI, muito poucos frequentaram com sucesso. Para receber o RSI, os pais são obrigados a levar os filhos à Escola e a frequentá-la eles próprios. No entanto, após o ensino primário, na entrada para o secundário, a população cigana desaparece.
MM refere que quando começou a trabalhar com esta população, os colegas avisaram-na de que eram “perigosos”, “sujos” e indisciplinados. À medida que os foi conhecendo – sobretudo através de intervenções informais -, consciencializou-se de que os ciganos têm uma cultura própria e talvez por isso tenham sido sempre rejeitados por todos. Por isso, foi com espanto e curiosidade respeitosa que se dedicou, como pessoa e como profissional, àquelas crianças, às suas famílias, e, em seguida, a toda a comunidade. Vivi então uma “aventura” educativa, sociológica, antropológica e social que me transformou tanto profissional como pessoalmente. Durante três anos, construíram-se afectos e destruíram-se em mim preconceitos e estereótipos.
O Projecto Nómada nasceu daí. O Nómada I (NI) começou em 1995 e terminou em 2004; dele nasceu o Nómada II (NII). O NI tinha como objectivos a promoção das comunidades ciganas, a transformação da escola e a formação contínua dos docentes; o NII visava uma metodologia de intervenção sócio-educativa. Pretendia-se valorizar a cultura cigana e dar-lhe a dignidade que a história portuguesa não lhe tinha reconhecido. Pretendia-se ainda formar redes de pessoas e de organizações que tivessem relações significativas com as comunidades ciganas. Pretendia-se desencadear uma mudança de atitudes e das práticas sócio-educativas, a fim de promover formas de democracia participativa fundadas na solidariedade e na diversidade.
O projecto baseava-se em quatro princípios interdependentes:
– As animações escolares nos mercados e feiras itinerantes frequentados pelas famílias ciganas e as acções de rua visavam o envolvimento das famílias nas actividades dos seus filhos, a aprendizagem intercultural e sensibilizá-las para a importância da escola;
– A dinamização de grupos culturais promotores da cultura cigana, tais como grupos musicais;
– A edição e publicação da revista Andarilho como espaço de visibilidade e de partilha das práticas educativas experimentadas no decorrer do projecto, e da própria cultura cigana;
– A formação contínua dos docentes e outros intervenientes, denominada Eco-formação. O professor/educador torna-se um “analista simbólico” porque deve encontrar a solução para problemas em contextos marcados pela complexidade e pela incerteza.
Foram construídos nove módulos que constituem o currículo validado pelo Conselho Científico e Pedagógico da formação contínua dos professores do Ministério da Educação de Portugal.
De 1995 a 2004 abrangemos 66 professores, em média, num total de 466 docentes em 9 anos, num total de 299 horas de formação. Quatro publicações foram editadas sobre as várias fases do Nómada: Ciganos e educação (1999) e Ciganos e Cidadania(s) (2007) – (Cadernos ICE de Setúbal); Aprendendo com ciganos (2003) – EDUCA; Ciganos aquém do Tejo (2004) – ACIME/ICE.
No último ano do NI (2003-2004), foi feita uma avaliação baseada em cinco dimensões de análise: os afectos e as motivações, os acontecimentos internos e externos ao projecto, as influências institucionais tais como o RSI e o PER e os efeitos do projecto nos profissionais, nas famílias, nas crianças e jovens, nas organizações, associações, etc., e a validade dos conceitos subjacentes às acções relacionadas com o projecto. Concluiu-se que o Nómada era uma sinergia das vontades e dos parceiros, apoiados numa metodologia de intervenção pedagógica.
Com base nos valores adoptados, tais como defesa da cidadania dos diferentes actores do projecto e a valorização das diferenças, dos afectos e da ética da solidariedade, transformou-se o Nómada I em Nómada II que visa a “promoção da cidadania das comunidades ciganas e a transformação da escola”, intervindo três eixos:
– animação comunitária a favor da cidadania;
– utilização da Eco-Formação para mudar o olhar dos docentes sobre as comunidades ciganas; e
– a sistematização da intervenção e produção de conhecimento que visa encorajar a falar e a saber escutar tanto as crianças como os adultos.
Tal como a aldeia de Astérix resistiu, também os Ciganos resistiram e continuarão a fazê-lo durante séculos.
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