Um diálogo a várias vozes: Desconstruindo alguns estereótipos acerca dos ciganos

ACIME – Boletim Informativo (Dez)
Um diálogo a várias vozes:
Desconstruindo alguns estereótipos acerca dos ciganos
A minha preocupação neste texto consiste em transmitir um olhar informado pela reflexão resultante de um percurso investigativo que levei a cabo com elementos de cultura cigana de uma comunidade inserida num Bairro da periferia da cidade do Porto.
Comunicação apresentada em 24 de Maio na Associação “Abril em Maio”, no debate sobre “Os ciganos vistos pelos Outros”.
Maria José Casa-Nova, começa por apresentar o estereótipo de que “os ciganos não trabalham, vivem de expedientes”, sublinhando, contudo, que “os ciganos exercem actividade profissional, mas apresentam uma relação com o trabalho que difere da forma de o perspectivar pela sociedade maioritária”. Não desenvolvendo, na sua larga maioria, um trabalho assalariado, o tipo de actividade que desenvolvem é de forma intermitente, com uma possibilidade de escolha relativa quanto a horários e dias de trabalho. Tal gera “alguma imprevisibilidade económica, que por sua vez gera alguma incerteza quotidiana no que concerne à satisfação de necessidades de (sobre)vivência”.
“Os ciganos fazem o que querem, não têm regras nem valores”, é o segundo estereotipo apresentado por esta investigadora do Centro de Investigação e Educação da Universidade do Minho. “Os ciganos não estão condicionados pelas normas e valores prevalecentes na cultura socialmente dominante” possuindo “o seu próprio sistema de valores expresso na chamada “Lei Cigana”.
“Os ciganos não gostam da escola”: de facto, “uma parte significativa das comunidades ciganas não se interessa pela escola”, “por ainda não lhe ter encontrado o necessário significado e interesse dentro do seu sistema de valores e modos de vida”. Mas esta falta de interesse também se deve ao facto de a Escola, enquanto instituição, também não se interessar por eles. Este estereotipo leva a outro que é: “as crianças ciganas apresentam um elevado insucesso escolar”. Mas este estereotipo só seria verdadeiro se as crianças ciganas frequentassem a escola com os níveis de assiduidade das restantes crianças.
O último estereotipo apresentado é o da construção de uma relação entre diferentes. Esta relação só poderá acontecer “numa compreensão do sistema de valores que informa e enforma os comportamentos desse ‘Outro’, que só pode ser compreendido se tiver subjacente o seu conhecimento e não se conhece com base em estereótipos, nem mantendo o ‘Outro’ à distância do medo, da insegurança, da superioridade ou…” “O processo de integração, para ser real, não pode ser considerado ‘sinónimo de subordinação a um grupo social e cultural maioritário, [mas] como um processo horizontal de influências recíprocas entre todos os grupos socio-culturais. Caberá a cada um de nós transformar ‘as utopias, enquanto lugares em construção’, em realidades intercambiantes, produtoras de uma igualdade praticada”.