AINDA HÁ CIGANOS A VIVER À “PRIMITIVA”
É inacreditável, mas na nossa região ainda há ciganos que vivem como antigamente.
Não é a nossa memória já que abrange esse “antigamente”, mas sim a literatura e a tradição oral.
Pois por cá vive ainda pelo menos uma família sem nunca ter tido casa, sem nunca ter conhecido qualquer conforto, dormindo ao deus dará, comendo o que calha e pedindo esmola.
Dizem-nos que às vezes são vistos a pernoitar debaixo da ponte de Ponte de Sor e noutros locais.
O António Agostinho nasceu em Nisa há 57 anos e vive, se assim se pode dizer, com a mãe, Leonor Guila, que nasceu em Portalegre não sabe há já quantos anos e viúva desde há muito de António Fernandes..
A velhota aparenta os sintomas de uma idade que deve ser a sua, com a senilidade a marcar forte presença, conjugando-se com a simplicidade do filho solteiro.
Acrescentam-nos que por vezes também uma filha, irmã do Agostinho, aumenta a família, mas essa filha estará durante parte do tempo com outros familiares a residir numa terra próxima do seu circuito habitual.
Passámos pela carroça, puxada pelo raquítico Ruço (foi-nos apresentado mais tarde) e empurrada também pelo Agostinho, numa manhã de nevoeiro intenso, próximo do cruzamento da EN.118 com a estrada para Ponte de Sor, ali à Margalha.
O apelo daquela visão recortada no nevoeiro fez-nos voltar para trás, com o objectivo único de registar a plasticidade daquela imagem.
No entanto perdemo-los, com grande pena, e ficámos apenas com aquela imagem fugaz que havíamos visto pelo retrovisor.
Por coincidência nesse mesmo dia e em regresso de terras da Beira encontramos uns ciganos a acampar junto à rotunda de Cadafaz e Belver, ali tangente a Gavião.
Eram eles, de quem já sabíamos alguma história, que eles nos acrescentaram, e que outros depois nos explicaram melhor.
É uma visão primitiva no nosso tempo.
Com alguma admiração mas também com uma simpatia carregada de humildade receberam a nossa aproximação.
Estavam a comer e por causa de nós pararam a refeição, que por talheres tinham as mãos e por comida arroz conjugado com toucinho, uma pata de galinha e mais alguma coisa num prato.
O lume havia afagado uma panela de ferro onde a comida foi aquecida. Lavada depois, à nossa frente, com uma água que não percebemos de onde veio e limpa depois com erva, ali apanhada.
O burro Ruço, que entretanto nos havia sido apresentado, entretinha-se a pastar, que ali havia erva naquele ermo, sorte que o burro nem sempre tem, quase o ouvimos garantir.
Entretanto e porque já seriam uma três da tarde, o Agostinho ia montando a barraca.
Com uns plásticos, uns cordéis e uns paus de vassoura que habilmente ia cortando para fazerem de estaca, ao amparo de um escanzelado sobreiro estava garantida a passagem de mais uma gélida noite de inverno e que o sol àquela hora até parecia querer enganar.
O Agostinho, soubemo-lo, é popular por aquelas bandas. Como que faz parte do tempo. Sempre por ali andou.
Diz-nos que o seu poiso anda pelo Castelo Sernado (ou Comenda), por Vale de Gaviões, gavião e Ponte de Sor. É o seu mundo.
Casa não tem… nem nunca teve.
Diz-nos então a mãe, que às vezes começa a falar de forma ininteligível, que nunca dormiu debaixo de um tecto.
E para tudo o resto? “Não há dinheiro”, respondem.
“Nunca tivemos casa, fomos criados pelo campo”.
E “se me dessem uma casa? Então não havia de querer, pelo menos estava debaixo de telha”, exclama Leonor Guila, que até arrebita com a pergunta, apesar de saber que para si nem sonho é, quando muito miragem.
E quanto à saúde? “Pouca”, diz-nos o filho, apontado como sendo o pior da vida que levam “o muito frio, e também o calor”.
Mas, e vivem de quê? “O pessoal tem pena da gente e sempre vai dando”.
Vive-se assim ainda, por incrível que pareça, deste modo primitivo em pleno séc. XXI.
Não sabemos se o Agostinho e a sua mãe são felizes, mas suspeitamos que não. Não sabemos também se seriam capazes de viver numa casa, e também temos dúvidas.
Sabemos, isso sim, que passam muito frio. E se não passam fome, muitas vezes comem o que nem imaginamos, de modo que nem sequer suspeitávamos. E graças apenas à caridade de quem os conhece desde sempre.
Entretanto, da sua própria etnia, muitos recebem da Segurança Social aquilo a que jamais têm direito.
A verdade é que o Agostinho e mãe vivem num mundo deles, muito próprio, e nós vivemos no nosso, que por breves instantes se cruzou com o deles.
Não temos no entanto a certeza de qual destes dois mundos é mais primitivo, mais rude, mais insensível, mas parece-nos que não é o deles.