AINDA O CCIT DE 2016 NA HUNGRIA

A revista do CCIT (Comité Católico Internacional para os Ciganos), chamada Nevi Yag (Fogo Novo em Romani), de junho de 2016 centrou-se na reunião anual do CCIT de abril de 2016 em Esztergom, Hungria. Gostaríamos de respigar algumas expressões e posições que nos parecerem marcantes.

 

Hungria Do artigo síntese habitualmente escrito por Gabor Gyorgyovich da Hungria, salientamos a expressão do cigano Csemer Csaba, logo no início, que em húngaro e em lovári (a principal língua cigana na Hungria) saudou os presentes agradecendo-lhes a sua “preocupação por mostrarem a bondade de Deus com os ciganos”.

 

Espanha A Irmã Belén Carreras Maya (BC), cigana, responsável pela Pastoral Nacional dos Ciganos em Espanha descreve a origem dos ciganos em Espanha, desde 1425 com o Rei Afonso V de Aragão e o papel da Igreja que desencadeou “um grande movimento de assistência aos nómadas” através de “secretariados a favor da integração dos ciganos … no quadro das Cáritas diocesanas”. “O trabalho social da Igreja foi um caminho de reaproximação e de reencontro religioso”, sintetiza BC. “Paralelamente, um movimento de criação de associações ciganas com o fim de favorecer a promoção social ao nível da sociedade civil, teve início em Espanha”. Calcula-se  que atualmente 80% dos ciganos aderiram à Igreja Pentecostal, cujos crentes são conhecidos em Espanha com os “Aleluias”.                                                                                                                     Sobre a situação atual BC diz que “os jovens ciganos afastam-se cada vez mais do modo de vida tradicional e dos valores ancestrais para se inserirem crescentemente na sociedade espanhola”; “renuncia-se à ideia de uma família numerosa, tendência acentuada também pelas dificuldades económicas que não lhe são propícias. Os media modernos, especialmente a televisão, o computador, o telemóvel, as redes sociais favorecem a inserção da cultura da sociedade maioritária nos lares ciganos, com as mudanças de comportamento que isso implica na vida quotidiana”. A coabitação com não-ciganos em bairros sociais cria uma “inter-relação e uma perceção de igualdade nos conceitos de direitos e deveres: o custo é que os comportamentos e  as tradições diluem-se no enquadramento social mais vasto. A comunidade cigana vive uma situação inédita”: os costumes tradicionais “parecem agora inadequados, enquanto que os novos pontos de referência não estão ainda bem definidos. Atualmente reina sobretudo o medo do futuro, a incerteza e uma inquietação difusa”. BC identifica as atitudes de transição de muitos ciganos como de niilismo e as dos mais pobres como de fatalismo. Relativamente à atualidade da pastoral cigana, BC salienta a beatificação em Roma de Ceferino Giménez Malla (el Pelé) em 4 de maio de 1997 e a peregrinação anual a Barbastro, terra natal do beato Zeferino e as duas peregrinações anuais a santuários da Virgem Maria em Sierra en Cabra (Córdova) e ao santuário da Virgem da Recuperação em Badajoz. Em diversos secretariados diocesanos da pastoral dos ciganos existem “grupos de ciganos que desejam um aprofundamento espiritual”. BC anuncia que está a ser organizada “uma jornada de discernimento para procurar novos métodos de evangelização inspirados pelos movimentos na Igreja e dirigidos a ciganos que desejam simultaneamente ser evangelizados e tornar-se evangelizadores do seu povo”.

Áustria Entre dois mundos, é o título do belo testemunho de Gisela Kroh (GK), mediadora cigana na Áustria. Originária de uma família cigana de músicos de Bratislava, Eslováquia, GK estudou, graças a uma grande tenacidade e à decisão, desde muito cedo de ter que ser independente para poder sobreviver. A família de GK foi obrigada a mudar-se para a Áustria, por motivos políticos – por o pai de GK se ter recusado a filiar-se no partido comunista. Bem recebidos no Burgenland, GK  tinha, no entanto, que ocultar a sua origem cigana. O casal mudou-se para a Alemanha onde GK iniciou uma carreira profissional de bancária com sucesso – as suas origens ciganas eram sussurradas, mas nunca foi discriminada; sentiu-se “em casa” no seu grupo profissional. Regressados à Áustria, Graças ao seu irmão e a Monika Scheweck (responsável pela pastoral dos ciganos na Áustria), GK “reencontrou as suas raízes” e agora dedica-se aos ciganos, descobrindo que, ao fim de tantos anos,  pode dizer: “sim, eu sou cigana”. GK conclui: “Para mim, ainda não é claro compreender porque é que a origem de um ser humano é tão importante, porque é que ela é tão posta em questão; o que é importante é o comportamento de cada pessoa nas suas relações com os seus amigos, os seus colegas os seus vizinhos, etc. Todos somos seres humanos, independentemente do nosso país e da nossa origem e nós não podemos passar mais do que algum tempo nesta bela terra!