– excerto de um texto de Vanda Narciso do NÓMADA, no blogue La Payita em 10/7/08
AS CRIANÇAS CIGANAS SÃO EDUCADAS EM CONTEXTOS DE LIBERDADE – excerto de um texto de Vanda Narciso do NÓMADA, no blogue La Payita em 10/7/08
As crianças ciganas são educadas em contextos de liberdade e improviso, pela família alargada. Pais, irmãos mais velhos, primos, tios… A comunidade familiar é, toda ela, responsável pela educação da criança, pela transmissão dos valores e das regras.
Para os ciganos, a educação é dada pela família. A instrução pela escola. E esta distinção é muito clara. E, à partida, isto parece perfeito. Em consonância com os despachos normativos do ME. Então porque se ouvem tantas histórias de conflitos com famílias ciganas nas escolas? Famílias inteiras ameaçando professores, algumas chegando inclusivamente ao acto de agressão?
Porque têm um percurso escolar diferente, consequência de práticas educativas diferentes, as crianças ciganas chegam à escola, na sua maioria, sem frequência de um jardim-de-infância; algumas sem saberem pegar numa tesoura ou num lápis… Falta-lhes o treino para desenharem as curvas difíceis das letras, o treino para estarem sentadas cinco horas numa cadeira… Crianças, de um modo geral, curiosíssimas, intuitivas, com uma enorme capacidade para improvisarem soluções; enfim, com todas as competências necessárias para aprenderem rapidamente, mas que não se adaptam e desmotivam. Que se isolam e são excluídas pelos pares não ciganos. Porque brincam diferente, porque falam diferente, porque são ciganas…
E o que faz uma criança, cigana ou não cigana, quando não se adapta? Porta-se mal… A frustração interior expressa-se, quase sempre, em problemas de comportamento. E o que faz um professor? Mandatado pelo ME, o professor age de acordo com o Regulamento Interno da Escola e aplica a sanção. Está tudo certo! Para os não ciganos (e como leram atrás (*), não para todos!). Mas para os ciganos, esta é uma questão de educação e, portanto, o professor tem de estar mandatado pela família… E os equívocos, os mal-entendidos, começam aqui… Por isso, nós, do Nómada, enrouquecemos a falar da importância dos Mediadores Ciganos nas escolas ou da contratação de Auxiliares de Acção Educativa ciganas…
Como o texto vai cada vez mais longo e as diferenças entre práticas educativas de Payos e Gitanos são material para muitas histórias, vou concluir o meu raciocínio.
Acredito, e acreditei sempre, que as diferenças se esbatem quando nos conhecemos, quando conversamos. Não é possível que comunidade escolar e comunidade familiar, independentemente da cultura ou meio social, se constituam enquanto COMUNIDADE EDUCATIVA, se não conviverem, se não partilharem receios, expectativas, se não partilharem espaços, dividindo tarefas, inventando estratégias conjuntas. Cada um tem o seu papel e isto resulta de uma negociação, clara e transparente para todos. O espaço é de todos! A angústia é de todos! O protesto é de todos! A reivindicação é de todos!
Se eu, paya, da suposta “cultura dominante”, escolarizada, que conheço razoavelmente o sistema educativo, que entendo (embora não me apeteça) as alineazinhas dos despachos normativos do ME… Se eu me sinto excluída da escola, como se sentirão os pais ciganos?
Por isso, não me respondam que nós não temos que nos meter no espaço de trabalho dos professores! Não é isso que se pretende! Respondam-me que não temos auxiliares para vigiar entradas e saídas, respondam-me que os equipamentos escolares estão completamente desadaptados das necessidades educativas dos alunos, respondam-me que é difícil ter vontade de ensinar perante as exigências de um ME, autista e castrador de criatividades e improvisos… Eu isso percebo… E estou convosco… Mas para vos ajudar tenho de “viver” ao vosso lado… No dia a dia… Partilhar espaços e conversar, para nos conhecermos.
Porque, acredito eu, tudo o que queremos… Professores, mediadores, auxiliares de acção educativa, dirigentes de associações de pais, pais ciganos, pais não ciganos… Tudo o que queremos é que os nossos chaborilhos e lacorilhos cresçam felizes! Como me dizia uma outra amiga professora: “O que nos anima são os putos!”.
É tão simples, não é? Então porque é tudo tão complicado?
(*) ver texto integral