“Os ciganos vivem excluídos a todos os níveis”
Atual – Diário do Alto Tâmega e Barroso (18 Jul)
“Os ciganos vivem excluídos a todos os níveis”
A investigadora Lurdes Nicolau (LN) ficará para sempre inscrita na história do pólo de Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) por ter sido a primeira a defender uma tese de doutoramento sobre a interacção dos ciganos transmontanos com a população maioritária, tanto no meio urbano como no rural.
“É um privilégio ser a primeira doutoranda a apresentar um trabalho no pólo de Chaves da UTAD. Os estudos sobre os ciganos em Portugal são tão escassos e eles vivem tão invisíveis, embora por vezes em bairros muito próximos, que a própria temática abordada é muito boa” afirmou LN à Voz de Chaves, antes de iniciar a defesa da sua tese (ver notícia neste nº).
Na região transmontana, os ciganos continuam a ser vítimas de “exclusão social e preconceitos”, garante LN.
LN, professora de ensino básico em Bragança, começou a trabalhar com a etnia cigana em 2002, em Espanha, para a tese de mestrado, após verificar que existia “pouca produção científica acerca dos ciganos, nomeadamente dos transmontanos”. A partir de 2005 inseriu-se em três bairros na periferia da cidade de Bragança e em seis aldeias do mesmo concelho, onde existem no total cerca de 130 famílias com cerca de 500 indivíduos. E concluiu que na cidade “os ciganos vivem excluídos a todos os níveis. Limitam-se aos seus bairros, que são barracas e casas degradadas, já excluídos, pois vivem nas periferias de bairros periféricos, e as relações que têm com não ciganos são institucionais e comerciais”, lidando com a falta de emprego e educação.
Nas aldeias, a realidade é outra. Em algumas, “também vivem excluídos, não há interacção com a população, nem sequer trabalho”. Contudo, em duas aldeias, LN encontrou casamentos mistos (ciganos e não ciganos) na maioria dos agregados familiares, interacção a nível profissional e social, havendo até ciganos a jogar cartas com a população local ou a assegurar trabalhos agrícolas, embora “a maioria da socialização seja intra-grupal”.
LN considera que o preconceito existe por desconhecimento. “Há muita gente que não conhece os ciganos, mas tem uma opinião sobre eles”. Mesmo nos meios em que existe interacção com a população local, “não deixa de haver momentos em que a identidade étnica vem ao de cima”, já que um casamento misto raramente é bem aceite por famílias não ciganas, mesmo em meios rurais. “Quando não se sentem aceites no outro grupo, acabam por se auto-excluir e virar os seus interesses para dentro do próprio grupoporque sabem que da parte do outro, não vão obter outra resposta. O estigma é muito grande”.
LN concluiu ainda que em Bragança residem dois grupos de ciganos que se auto-diferenciam entre “chabotos” e “gitanos” (feirantes) e cujas diferenças residem no poder económico, religião, moral, dialecto ou aparência física. As conclusões recolhidas em Bragança são o reflexo do que se passa no resto do país: “todos os estudos sobre os ciganos” afirmam que eles são “ o grupo étnico mais marginalizado não só em Portugal, mas no resto da Europa”, confirma LN.
Como lutar contra a exclusão é uma tarefa difícil, sobretudo porque a sociedade geral tem tendência a generalizar os estereótipos sobre os ciganos. A proximidade é o que pode levar a minimizar estas ideias pré-concebidas. Este estudo tem precisamente como propósito permitir “que as pessoas conheçam os ciganos e tenham uma interacção normalizada junto dessa população”.