Ciganos
B I (Boletim Informativo do ACIME – Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas) ( Mar/Abr)
Ciganos
Para além dos preconceitos
Trata-se de uma entrevista dada pelo Director Executivo da ONPC, Dr. Francisco Monteiro, onde começa por falar sobre a imagem dos ciganos, a sua inserção na sociedade, a exclusão e a intolerância de certos sectores das comunidades maioritárias. A ONPC desde 1972, trabalha com o intuito de promover a inserção da comunidade cigana na sociedade portuguesa “através do conecimento mútuo, da aproximação e do diálogo, convidando os próprios ciganos a assumirem-se perante a sociedade como responsáveis pelo seu desenvolvimento”. Segundo Francisco Monteiro, a ONPC tem priorizado a evangelização (Projectos PALAVRA), a formação em distintos aspectos, o realojamento condigno (Projecto DIGNIDADE) e a promoção cultural cigana (EXPOCIG e jornal A CARAVANA). Definindo a identidade do cigano, descreve-o como “um indivíduo extraordinário, fascinante”; alguém que é “fiel aos seus valores tradicionais, concede à família, às crianças e ao convívio um lugar de destaque”. Ao ser questionado sobre o modo como a comunidade cigana tem reagido ao trabalho desenvolvido pela ONPC, afirma que “as inúmeras carências tendem a fazer com que a procura, numa grande percentagem de casos, se relacione com aspectos de apoio humanitário e social”, mas que existem outras razões como o facto das quatro associações que a Obra ajudou a criar, as quais “pretendem desenvolver a etnia cigana e a sua inserção na sociedade”.
Quanto aos meios à disposição da instituição, o Dr. Francisco Monteiro frisou que a Obra não dispõe de muitos meios e que quando lança projectos específicos, recorre a financiamentos de quem queira apoiar esses projectos; considerou fundamental que o “Governo e as Autarquias implementem programas especiais para a educação, o realojamento e o emprego da população cigana”.
Não esconde o facto de o Cristianismo nem sempre ter entrado em diálogo com a cultura cigana para a sua evangelização. O entrevistado nota que se verifica “em muitos casos um fenómeno de tranferência, ou seja, a exclusão a que os ciganos se encontram sujeitos na sociedade civil, é transposta para o interior das igrejas”. Tem-se procurado contrariar esta realidade desenvolvendo diversas actividades, nomeadamente, “intervenções na comunicação social, peregrinações nacionais e internacionais e projectos como a ‘PALAVRA’, como formas de apoiar espiritualmente os ciganos, contribuindo assim para que no futuro se culmatem as distâncias, estabelecendo as tais ‘pontes’ sociais de que falou recentemente D. Manuel Martins”.
Questionado sobre a intolerância social, o Director Executivo da ONPC afirma que esta “deriva de um grande desconhecimento da cultura cigana; cultura que esta minoria étnica tem sabido preservar”. Reconhece que as mentalidades não se mudam de um dia para o outro e esse é o trabalho mais difícil, mas considera que “já é altura de introduzir um novo impulso e melhorar o enquadramento jurídico” relativamente a alguns problemas existentes; acrescenta que “a saída para os problemas de inserção dos ciganos na sociedade maioritária deverá atender às características culturais das comunidades ciganas, ou seja, à preservação dos valores da família, do amor à liberdade e da aptidão natural para o comércio”.
Na parte final da entrevista o Dr. Francisco Monteiro exorta o Governo a abandonar as leis discriminatórias relativamente à venda ambulante e apela às Autarquias e Polícias Municipais a dialogarem com as associações de Ciganos esforçando-se por compreenderem a cultura cigana. Às comunidades Ciganas, formula os votos de muita “união e organização face aos inúmeros problemas com os quais se debatem na luta por uma inserção efectiva” e de “evolução no sentido da adequação da cultura milenar cigana aos condicionalismos socio-económicos da sociedade maioritária”.