Um diálogo a várias vozes: Desconstruindo alguns estereótipos acerca dos ciganos
BI – Boletim Informativo #13 – ACIME (Dez)
Um diálogo a várias vozes:
Desconstruindo alguns estereótipos acerca dos ciganos
Completamos a notícia iniciada no nº 31.
A autora, Maria José Casa-Nova, começa por apresentar o estereótipo de que “os ciganos não trabalham, vivem de expedientes”, sublinhando, contudo, que “os ciganos exercem actividade profissional, mas apresentam uma relação com o trabalho que difere da forma de o perspectivar pela sociedade maioritária”. Não é, na maior parte dos casos, um trabalho assalariado, mas “é um tipo de actividade que podem desenvolver de forma intermitente, com uma possibilidade de escolha relativa quanto a horários e dias de trabalho (…) mas também de alguma imprevisibilidade económica, que por sua vez gera alguma incerteza quotidiana no que concerne à satisfação de necessidades de (sobre)vivência”.
“Os ciganos fazem o que querem, não têm regras nem valores”, é o segundo estereotipo apresentado por esta investigadora do Centro de Investigação e Educação da Universidade do Minho, onde salienta o facto de os ciganos não estarem “condicionados pelas normas e valores prevalecentes na cultura socialmente dominante”. E justifica o mesmo por os ciganos possuírem “o seu próprio sistema de valores expresso na chamada “Lei Cigana”.
“Os ciganos não gostam da escola”, é um estereotipo que não é totalmente verdade, já que segundo Maria José Casa-Nova, o que se passa na realidade é “que uma parte significativa das comunidades ciganas não se interessam pela escola”, motivação essa que não existe “por ainda não lhe ter encontrado o necessário significado e interesse dentro do seu sistema de valores e modos de vida”. Mas esta falta de interesse também se deve ao facto de a Escola, enquanto instituição, também não se interessar por eles. Este estereotipo leva a outro que é: “as crianças ciganas apresentam um elevado insucesso escolar”. Mas este estereotipo só seria verdadeiro se as crianças ciganas frequentassem a escola com os níveis de assiduidade das restantes crianças. Todavia, sabemos que isso não é verdade.
O último estereotipo apresentado é o da construção de uma relação entre diferentes, que só poderá acontecer “numa compreensão do sistema de valores que informa e enforma os comportamentos desse ‘Outro’, que só pode ser compreendido se tiver subjacente o seu conhecimento e não se conhece com base em estereótipos, nem mantendo o ‘Outro’ à distância do medo, da insegurança, da superioridade ou…” E conclui sublinhando que “o processo de integração, para ser real, não pode ser considerado ‘sinónimo de subordinação a um grupo social e cultural maioritário, [mas] como um processo horizontal de influências recíprocas entre todos os grupos socioculturais. Caberá a cada um de nós transformar ‘as utopias, enquanto lugares de construção’, em realidades intercambiantes, produtoras de uma igualdade praticada”.