Os ciganos são um povo com uma enorme força de carácter

BI – Boletim Informativo #19 – ACIME (Jun)
Os ciganos são um povo com uma enorme força de carácter
Desde o início dos anos 90, Mirna Montenegro (Instituto das Comunidades Educativas) dedica os seus esforços ao conhecimento e compreensão das comunidades ciganas e ao ensaio de projectos educativos dirigidos à sua melhor integração no sistema escolar.
Na sua opinião, no caso dos ciganos não podemos falar de integração, porque eles estão em Portugal há 500 anos. Defende uma escola ‘com os ciganos’ e não uma escola ‘para os ciganos’, porque “a escola tem que ser suficientemente flexível para acolher a diferença e para que os ciganos possam participar”. “A escola está a tornar-se demasiado rígida, em termos de horários, de posturas, de atitudes exigidas, e isso não facilita a acessibilidade. Logo quem é diferente fica de fora”.
“Quando o professor se confronta com uma criança cigana na sala de aula, confronta-se com um modo de estar diferente, em termos de utilização do espaço e de percepção do tempo”. “Os ciganos são um povo que não tem cultura escrita. Sempre viveram sem escola e irem à escola é como que uma troca: ‘a gente vai à escola, mas em troca dão-nos qualquer coisa’ ”. As crianças ciganas “quando estão muito tempo quietas e há muito silêncio, desconcentram-se e desligam, porque têm um processo de aprendizagem distinto e apreendem mais facilmente os pormenores quando há movimento.”
“Os ciganos são psicólogos natos, são muito observadores e têm um talento natural para analisar o fundo da pessoa. … O processo de negociação é uma das suas mais-valias, e nós temos que aprender a negociar com eles. E as crianças aprendem a negociar muito cedo. Para além disso, são um povo com uma enorme força de carácter. … Apesar de serem muitas vezes rejeitadas, nunca desistem do dia de amanhã. São muito persistentes e solidários, e muito afectivos, ao passo que nós somos mais frios e distantes.”
O bom relacionamento entre a comunidade cigana e a não cigana nas escolas é mais fácil nos meios rurais, “porque não há concentração” e as regras “são mais flexíveis na entrada e na saída, no estar, nos ritmos do tempo e do espaço. Nas escolas da cidade, onde há uma grande concentração de diferenças e de pobreza, e regras mais rígidas, o convívio é difícil”. Mirna sugere “escolas mais pequenas, com menos concentração de crianças, para que seja mais fácil o convívio”.
“Não se deve nunca estereotipar” “determinadas saídas profissionais para os ciganos”. Deveria aproveitar-se “a capacidade nata dos ciganos para o negócio, fornecendo-lhes instrumentos que lhes permitam aproveitar essas potencialidades.” “Os cursos profissionalizantes de mediadores ciganos foram uma moda nos países da UE, que começou em França em 1981, com a UNISAT”; mas muitos “estão desempregados e as escolas não os contratam. Por vezes, nas suas próprias comunidades, os mediadores são também um pouco mal vistos, o que obrigou muitos deles a voltarem à vida que tinham anteriormente.” A alternativa seria “sensibilizar a escola, porque os mediadores só são contratados pelas escolas se estas, no seu projecto educativo, contemplarem essa função.”