“Se os ciganos forem ouvidos, isso será meio caminho andado”
“Se os ciganos forem ouvidos, isso será meio caminho andado”
O Director Executivo da ONPC, Francisco Monteiro (FM), defende um diálogo continuado com os ciganos, em tudo o que lhes diz respeito, como a única forma de vir a conseguir a sua plena inclusão na sociedade portuguesa
Esta entrevista a FM começa por questionar “quem são os ciganos em Portugal?” FM recorda que estes estão em Portugal há 500 anos após se terem espalhado por toda a Europa. “Os ciganos foram os primeiros europeus na Europa”: “têm as nacionalidades todas da Europa e têm uma cultura muito própria que não querem perder”. Sobre se a distinção entre ciganos e não ciganos, é uma distinção rígida, FM afirma que ela “só se perde quando há casamentos mistos, o que não é uma regra”. “O casamento endogâmico é muito importante para estas culturas se perpetuarem”; “os ciganos mantêm a sua cultura de uma forma muito empenhada e há uma fronteira clara, em termos culturais entre o cigano e o não cigano”.
Sobre se os ciganos vivem todos da mesma maneira, FM refere que há aqueles que estão bem e existem aqueles que “infelizmente não estão bem”. “Há os que têm mais capacidades, ou mais oportunidades, para enfrentar a sociedade, há ciganos que têm lojas, por exemplo e são bem sucedidos”. Recorda o caso do presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras que é cigano e os ciganos espanhóis muito mais escolarizados. “Mas a cultura é a mesma. A não ser aqueles que eventualmente se casaram com não ciganos e se distanciaram um pouco mais da sua cultura”.
Questionado sobre se as conquistas dos ciganos espanhóis são um modelo a atingir para os ciganos portugueses, FM afirma que “sem dúvida que sim”. “Os ciganos espanhóis estão a pensar numa confederação a nível internacional, e querem o apoio da Federação Portuguesa, a FECALP, na formação dessa confederação”. E acrescenta: “os ciganos espanhóis estão muito à frente dos portugueses no âmbito da organização. Basta dizer que em Espanha a Fundación Secretariado Gitano, que nasceu no seio da Igreja Católica, é a maior organização de toda a Europa em termos de apoio aos ciganos”. Esta organização “tem um elo de ligação permanente com a Comissão Europeia para desenvolver as suas actividades e neste momento está a ser chamada pela UE para projectos em países do Leste da Europa”.
FM considera ainda que a forma como a população maioritária vê os ciganos tem evoluído “embora não tanto como gostaríamos”. Refere que “desde há uns anos, a Pastoral dos Ciganos tem tido uma política de abertura à comunicação social para que os ciganos apareçam na televisão, na rádio e na imprensa escrita”. Sendo a comunicação social “muito influente na opinião pública”, “o problema dos ciganos é a discriminação, que vem da ignorância, do facto de as pessoas não saberem quem eles são e de não conhecerem a cultura cigana”. Neste momento existe “uma preocupação muito maior por parte dos órgãos de comunicação social em não ofender os ciganos”. Mas continua a haver “muita discriminação e muita exclusão”, dando como exemplo o facto de quando se realizou o Fórum Ibérico: “tivemos de recorrer a uma agência de viagens para reservar quartos de hotel, porque a Pastoral dos Ciganos não conseguia reservar quartos directamente”.
FM considera que as actividades económicas tradicionais dos ciganos não se estão a transformar, mas antes a regredir. “Os ciganos neste momento estão num beco sem saída. Os mercados estão muito mal e são de certa maneira perseguidos pelas câmaras municipais, que os põem cada vez mais longe, por causa das pressões urbanísticas com base em PDM em que os ciganos não são ouvidos”.
Em relação à iniciativa dos mediadores municipais ciganos do ACIDI, FM considera-a uma “iniciativa a todos os títulos notável”. “As câmaras que aderiram têm a possibilidade de dialogar com os ciganos nas suas autarquias através de um cigano ou de uma cigana escolhidos para o efeito”. “É o tipo de medidas que deveriam sempre ser tomadas, porque as minorias devem ser acarinhadas, não devem ser ignoradas”.
Sobre o Fórum Ibérico, FM afirmou que esta “foi uma ideia de Dinis Abreu, Presidente da Associação Cigana de Leiria e membro da Direcção da FECALP, que pretendia realizar uma grande acção para colocar os ciganos na comunicação social”. “Pretendeu-se organizar uma conferência que abordasse três grandes questões dos ciganos: a educação, a formação profissional e o comércio ambulante. Quisemos chamar todas as entidades de Portugal e de Espanha que estivessem de alguma forma relacionadas com estes temas e debatê-los”.
Interrogado sobre o facto de por vezes se ter a impressão de que não são os ciganos a falar por si próprios, FM diz que o Fórum Ibérico teve este aspecto muito importante: “foram os ciganos que falaram”. “A FECALP tem assumido muito protagonismo, e têm sido os ciganos a falar à Lusa e a ir à televisão” A Pastoral dos Ciganos “é um serviço aos ciganos e vamos apoiar tudo o que eles promoverem, mas cada vez com menos protagonismo para nós. Enquanto não forem os ciganos a falar por si próprios, nada se faz”.
Sobre que medidas poderiam ser transformadoras da realidade social dos ciganos, FM denuncia o facto de existir “uma grande apatia por parte de alguns ministérios, em sucessivos governos”. “Se os ciganos começarem a ser ouvidos para certos projectos, sistematicamente, isso seria meio caminho andado”. E acrescenta: “nos âmbitos da educação e da formação profissional, por exemplo, seria muito importante que as pessoas fossem ouvidas”.
Sobre se a modernidade agravou o fosso entre as minorias e a população maioritária, FM concorda e afirma que “os ciganos têm aptidões para as novas tecnologias mas é quando entram nelas. Quando há uma preocupação inicial, uma formação, os problemas ultrapassam-se e as coisas evoluem”.
Sobre o que pretendem os ciganos conservar e o que desejam transformar, FM refere que um factor muito importante para a alteração de certos aspectos negativos, foi a Igreja de Filadélfia, que “funciona com pastores ciganos”. Refere ainda que a cultura cigana se irá manter. “As feiras podem estar em extinção, mas os ciganos vão inventar novas coisas, vão-se adaptar”.