CARAVANA 87 – EDITORIAL

LUZES E SOMBRAS NO MUNDO CIGANO

O mundo cigano é feito de contrastes: a fidelidade do povo cigano à sua cultura e às suas tradições em contraste com a tendência de homogeneização por parte das sociedades maioritárias; a liberdade com que as crianças ciganas são educadas, em contraste com a formatação dos sistemas escolares que têm que frequentar, etc.

 

Quando chegamos a temas da atualidade e começando pelas sombras, é profundamente triste e revoltante a impunidade, até ao presente, dos racistas da escola do Ku Klux Klan que em Stº Aleixo da Restauração / Moura queimaram casas e carros de ciganos, pintaram ameaças de “morte aos ciganos” nas paredes, incendiaram a sua igreja, colocaram caixões à porta dos ciganos, envenenaram um cavalo e lançaram bombas para os seus quintais, atos todos eles documentados pelo SOS Racismo e denunciados, só porque “não queremos cá os ciganos”. Depois, neste país (que já foi) de brandos costumes, supostamente plural e acolhedor, teoricamente cristão – estes atos são violentamente opostos ao cristianismo que os seus autores pretendam professar -, o silêncio e a acomodação são profundamente injustos e revoltantes.

 

E há os aspetos luminosos que brilham sobre as trevas dos criminosos racistas de Stº Aleixo. Em Viana do Castelo, como se conta neste nº da Caravana, deram-se as mãos para resolver os problemas de uma família apanhada em divergências por dissidências familiares; a história espantosa do P. Zoltan, cigano húngaro, também neste nº da Caravana, a quem, no limite dos seus sofrimentos, uma, ou várias mãos sempre  ajudaram a levantar-se e a continuar a caminhar; ou ainda os movimentos apoiados pela UE que ajudam ciganos e ciganas a tomar o seu futuro nas suas próprias mãos, levam-nos a sonhar com um mundo em que as pessoas se amem sem distinguirem de onde vêm nem que cultura têm, um mundo sem discriminações, sem expulsões, sem violência, um mundo de paz, de concórdia e de respeito pela alteridade de cada um.

Francisco Monteiro