CARAVANA 88 – EDITORIAL
“Campismo selvagem”
“Campismo selvagem”, assim classificou a GNR de Beja, em comunicado, a acção de desalojamento violento, sem alternativa de realojamento, de três famílias ciganas que viviam na Vidigueira, por ordem do respectivo Presidente da Câmara, da CDU, em 16 de fevereiro. O único crime destas famílias, desalojadas em pleno inverno, foi o de não terem posses para possuírem uma casa e, no caso de pelo menos uma família, quando pretendeu alugar uma casa, logo o dono ao ver que eram ciganos, lhes disse que já estava alugada. Posteriormente, o mesmo proprietário haveria de dizer que a casa estava para venda. Esta família com quatro filhos, o mais novo, na altura com dois meses, vive na Vidigueira há sete anos, sendo, por isso munícipe da Vidigueira e foi posteriormente sistematicamente perseguida e desalojada pela GNR, durante a noite, à chuva; a mãe das crianças dizia “não nos querem cá” e “vivemos na diáspora”, sendo obviamente portugueses e munícipes da Vidigueira.
Apesar da boa vontade dos responsáveis do Governo por situações como esta, até ao momento da redação deste editorial, ainda não foi encontrada solução para esta desumanidade, os responsáveis da GNR não foram, ao que se saiba, censurados e futuras ações semelhantes proibidas. Tudo isto no silêncio dum país governado por um partido teoricamente socialista, numa Câmara Municipal governada por um partido teoricamente comunista, perante a reação inicial da comunicação social a que se seguiu o interesse por outros assuntos mais aliciantes do que o brutal sofrimento de uma família cigana desalojada pela sua Câmara e perseguida pela “autoridade” como as vítimas lhe chamam, como se vivêssemos não no Portugal democrático e europeu onde pensamos que vivemos, mas numa qualquer república onde impera a lei da violência e o mais absoluto desprezo por quem é pobre.
Como seria bom que acordássemos para o que verdadeiramente interessa: o respeito por quem nada tem e por isso nada pode, a não ser sofrer – silenciosamente. No entanto, o seu silêncio é um grito que chega ao céu e o céu nos acusará do que fazemos ou do que calamos.
Francisco Monteiro