CARAVANA 90 – EDITORIAL
EDUCAR PARA CONVERGIR
As culturas não vivem sozinhas mas mantêm-se en su circunstancia, usando a terminologia de Ortega y Gasset; ou seja, inter-relacionando-se com as outras culturas onde se inserem ou com quem têm algum tipo de conexão. Assim, a cultura cigana, ou, mais propriamente, as culturas ciganas, necessariamente tendem a convergir com as culturas que, tendo maior expressão social que as suas, são caracterizadas por hábitos e por tradições próprias, distintas, nas suas origens, daquelas que tipificam as culturas ciganas.
A educação é o grande homogeneizador quer dos comportamentos sociais, quer da diversidade das várias culturas. Veja-se o que aconteceu ao longo de quinhentos anos nos continentes que, por terem culturas com organizações mais simplificadas, a que a antropologia inicial erradamente chamou “primitivas”, tiveram que suportar, com raras exceções, o impacto do contacto com a cultura ocidental visitante, nos continentes americanos e africano, em contraste evidente com a muito menor influência que a cultura europeia teve na Ásia. Isso revela-se desde logo na língua, expressão fundamental da idiossincrasia dos povos, que as populações americanas e africanas tiveram que assimilar como expressão própria da sua forma de pensar e sentir, que de forma nenhuma o eram, enquanto que na Ásia, essa “violência” à essência cultural dos povos foi consideravelmente menor.
Este número da Caravana fala por duas vezes da educação das crianças ciganas: na notável perspetiva de Maria José Casa-Nova e na não menos assinalável investigação da FRA (Agência Europeia para os Direitos Fundamentais). Temos que remontar aos primórdios do RMG/RSI para encontrarmos o início da verdadeira revolução na educação das crianças ciganas, depois de muitos anos de esforços sobretudo dispersos e pouco generalizados por parte de instituições que intuíram o problema base da exclusão das populações ciganas: a não escolarização. A partir do momento em que ela se tornou efetivamente obrigatória, deu-se um passo de gigante no sentido, se não da convergência de culturas – vamos respeitar de alma e coração a alteridade e o direito à diversidade -, mas da real possibilidade de, quem estava alienado, puder, se assim o entender, usufruir dos direitos que, por definição, são iguais para todos, sem distinção de culturas e sem excluir quem opte por ser fiel à sua cultura própria.
Pelo caminho ficaram grandes esforços, poucos conseguidos ou vertidos em legislação efetiva, para desbloquear e incentivar a educação dos e sobretudo das jovens ciganas, através da mediação sociocultural nas escolas secundárias e nas famílias ciganas e a notável medida de endogeneização da cultura cigana no sistema escolar português que foi a iniciativa dos PIEFs (Programa Integrado de Educação e Formação) dos PIECs (Programa para a Inclusão e Cidadania) nos TEIPs (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária).
Com os novos ventos que sopram na atual Administração Pública, carregados de boa vontade e de determinação no sentido de se obterem resultados e de se ultrapassarem barreiras e atavismos, com o apoio e a participação ativa, organizada, decidida e aberta dos próprios responsáveis ciganos, esperemos que novos frutos surjam e que a educação contribua eficazmente para a convergência de pessoas, populações e culturas.
Francisco Monteiro