CARAVANA 91 – EDITORIAL
O GRITO DOS POBRES, O GRITO DOS QUE SOFREM INJUSTIÇA
Já falámos deste caso no Editorial do nº 88 da Caravana. Em março passado, várias famílias ciganas, por ordem do Presidente da Câmara da Vidigueira, foram escorraçadas pela GNR desta terra onde viviam, uma delas há sete anos, pelo que esta família é munícipe da Vidigueira: as crianças mais velhas vão à escola da Vidigueira, é no SNS e na SS da Vidigueira que está inscrita. Só que, infelizmente não têm dinheiro para ter uma casa ou um terreno e quando, como há bem pouco tempo aconteceu, tentam alugar uma casa, acertaram o preço e o sinal, quando os donos viram que eram ciganos não lhes alugaram a casa.
Desde março passado que a GNR da Vidigueira não deixa esta família em paz, perseguindo-a para onde quer que vá, na área da sua jurisdição. Pouco interessa à GNR da Vidigueira, distrito de Beja, a legislação sobre os direitos dos portugueses à habitação, como prontamente o ACM (Alto Comissariado para as Migrações) recordou em comunicado do passado mês de março. “Não podem estar aqui” e ainda recentemente guardas da GNR lhes rasgaram o toldo em que se abrigavam, no terreno de uma familiar, deixando à chuva quatro crianças, a mais pequenas das quais seriamente doente. Estes portugueses sentem-se na diáspora, como dizem, na sua própria terra, desesperados. O Presidente da Câmara que ainda há pouco tempo teve a distinção de organizar uma reunião do seu Partido, difundida na TV, diz-lhes sistematicamente: não temos solução para vocês. Finalmente a família conseguiu alugar uma casa na Vidigueira a um familiar. Pois até aí a GNR da Vidigueira foi importunar esta família: bateram no dono da casa, partiram os vidros do carro de um familiar, partiram a louça da casa de jantar e deram cabo do fogão de que a família se serve para se alimentar e sujaram a roupa que estavam a lavar num ribeiro perto. A família foi queixar-se â GNR … da Vidigueira; a resposta que tiveram: “ainda foi pouco”. De tudo isto tem sido dado conhecimento às autoridades deste país; resultado: investigações? talvez, não se sabe; punições dos culpados? certamente que não, caso contrário não voltavam aos mesmos procedimentos, agravando-os de cada vez, até chegarem aos atos criminosos de vandalismo que acabámos de descrever. Entretanto o país adormece tranquilo, não ouvindo os gritos de quem assim é tratado. Há tantas coisas mediáticas que interessam, porquê olhar para uns pobres ciganos ignorados por um autarca que seguirá o princípio do politicamente conveniente, e perseguidos neste país que se diz democrático, por uns elementos de uma força da ordem que supostamente deve fazer precisamente isso mesmo: defender a ordem e cumprir a lei, mas que fazem o contrário em total impunidade, com conhecimento dos responsáveis deste mesmo país.
“Esperei ansiosamente pelo Senhor: ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito” (Sl 40, 1).
Francisco Monteiro