CARAVANA 92 – EDITORIAL

ESFORÇOS E EXPETATIVAS

São notáveis os esforços determinados da UE em prol da inclusão dos ciganos e, recentemente, como se noticia nesta página, também na esfera da justiça. As políticas da UE podem incomodar alguns que teimam em destruir valores, só porque são valores que contrariam o seu desenfreado egotismo. Steve Bannon, o americano que acabou por se desentender com o seu mestre e mentor Trump – tudo o que é violento acaba, diz o conhecido ditado -, dedicou-se à política que ele próprio cunhou de subverter a UE.

 

E logo os populistas egotistas de alguns países europeus o idolatraram, até ao dia em que esse entusiasmo se desfaça, como aconteceu com o de Trump por ele. A UE, no que de mais nobre e humano a sua constituição tem, não suporta ver um dos seus princípios básicos, a coesão social, ser esfrangalhada pela existência dolorida de milhões de ciganos dentro das suas fronteiras e  continua a acreditar na inclusão, na participação, na justiça social. E di-lo claramente, pedindo resultados concretos das suas políticas, assim os países que integram a UE, agora que o desastre do Brexit afastou os espetros do Franxit e sequelas, façam o seu trabalho de casa, construam pacientemente os seus programas, com determinação e com a  participação alargada dos seus destinatários, os ciganos.

 

Quanto à maioria dos ciganos, esses, no sofrimento incrível das suas vidas quotidianas, completamente desajustadas das realidades quer da segurança social, quer da mais elementar sobrevivência contra a fome e contra a doença (medicamentos receitados que não podem comprar, tratamentos que não têm dinheiro para fazer, etc.), para já não falar da habitação indigna e das condições de escolarização que lhes são negadas ou porque a GNR “não os quer lá” ou porque não têm outras condições habitacionais para aquilo que é normal para os outros que é “ir à escola”, esses aspiram a que alguém os ouça, a que lhes sejam dadas oportunidades para preencher o imenso espaço que os separa da vivência “normal” que a Constituição lhes garante mas que as realidades duras e cruas das estruturas cívicas lhes negam, perante a surdez operacional e a indiferença prática de tantos responsáveis.

Francisco Monteiro