Cais (abril)

Chegar a casa

Cresceram e viveram sempre em tendas e em acampamentos. Passaram frio e sabem o que dói serem expulsos de um lugar, pela polícia e pela população. Conhecem de perto a palavra discriminação pelo simples facto de pertencerem a uma etnia minoritária, na nossa sociedade. Zuca e Mónica (Z e M) são dois jovens, marido e mulher, residentes numa povoação dos arredores de Évora.

 

 

Z e M vivem da criação e venda de animais. André, antropólogo que acompanhou de perto esta família e com quem criou laços de amizade, disse à Cais que “os ciganos não são uma comunidade mas sim várias. São diversos clãs com alguns princípios e tradições em comum, mas cada um é independente dos restantes. Estes clãs são quase sempre formados por laços de sanguinidade e essa independência acontece quase sempre com o casamento.”

Z e M casaram por amor e quiseram ter filhos, mas não queriam dar-lhes a infância difícil que ambos tiveram.

A procura de casa foi um processo longo e doloroso, pois ninguém os aceitava. André, que os acompanhou, diz que “as pessoas nunca lhes diziam que era por serem ciganos, mas essas coisas sentem-se.”Acabaram por conseguir alugar uma casa a um senhor que já os conhecia e que confiava neles. Sentem-se bem na terra onde vivem e são bem acolhidos pela população, mas dizem sentir um sabor amargo por terem sido rejeitados de Évora. Z e M e os seus familiares “sempre tiveram problemas com a população de Évora”.

Os ciganos sentem um apego grande ao lugar onde cresceram. Fala-se muito de nomadismo, mas André explica que “o termo nem sempre é bem aplicado pelo simples facto de que muitas vezes estas comunidades são forçadas a mudar pelas autoridades.” Este antropólogo refere ainda que muitas vezes os ciganos deslocam-se “sazonalmente e têm uma rota bem definida dos sítios onde têm de passar e de quanto tempo irão permanecer neles, existindo sempre a vontade ou a certeza do regresso à terra que dizem sua.”

Z e M conseguem retirar “o melhor dos dois mundos, preservam a maioria das tradições da sua etnia, como o respeito pelos mais velhos, o facto de trabalharem juntos, de terem casado segundo os costumes ciganos e de terem tido sempre vontade de terem filhos.”

Ambos têm amigos ciganos e não ciganos e orgulham-se disso; sempre tiveram como ambição “deixarem de viver em tendas e dar escolaridade às filhas”. Vivem numa casa alugada há cerca de 4 anos, passam fome e frio e não sabem se algum dia vão voltar a viver em tendas, mas afirmam que:  “é tão bom chegar a casa”.