El País (3 nov)

Ciganos, o presságio de outras infâmias, por Miguel Mora

Artistas e intelectuais franceses alertam para a amnésia e para os novos sintomas racistas. A perseguição dos ciganos antecedeu as duas guerras mundiais

 

No dia 6 de janeiro de 1940, o capitão republicano espanhol Manuel G. Sesma de Navarra, chegou a Montreuil-Bellayque hoje vota em Marine Le Pen, e que se converteu então no maior campo de concentração de ciganos da França. O campo permaneceu no desconhecimento, até que, nos anos 80, Sigot descobriu as suas ruínas. Os restos deste campo foram considerados património nacional desde 2012.

 

Marie CristineHubert, escritora, refere que em França as perseguições aos ciganos começaram muito antes da ocupação nazi. França e Alemanha que eram inimigos em tantas guerras, viveram a mesma obsessão de perseguir os ciganos e ao mesmo tempo. Segundo Ian Hannock, professor da Universidade do Texas, em 1920 os ciganos na Alemanha foram proibidos de entrar nos parques e nos balneários públicos; em 1925 foram enviados para os campos de trabalho e em 1935 os nazis restauraram leis anticiganas de origem medieval, para os oprimir ainda mais.

Hoje, os ciganos são notícia pelas mesmas lendas de há 500 anos: se têm uma filha loira é porque roubam crianças.

KrissMirror, um dos artistas que, em 2010, em réplica aos ataques de Sarkozy contra os ciganos, montou uma plataforma para resgatar a memória da perseguição, afirma que “dá pena ver que o racismo anticigano continua a ser gratuito e é rentável politicamente. É lamentável, porque os ciganos costumam ser o primeiro sinal de alarme de que algo de terrível se vai passar. As leis raciais da III República Francesa, foram aprovadas em abril de 1940, antes da França estar em guerra e de Vichy. A primeira lei racial do séc. XX foi aprovada em 1912, dois anos antes da I Guerra Mundial e continua em vigor. O III Reich equiparou os ciganos aos judeus na classificação de não arianos e no genocídio: 80% da população cigana dos países ocupados pelos nazis foi assassinada, tal como a população judaica.  Hubert afirma que “pelo menos 6500 pessoas viveram entre 1940 e 1946 em 30 campos de concentração franceses por pertencerem real ou supostamente ao povo cigano. Os seus bens foram expropriados e sofreram a maior precariedade material e moral”. “Os filhos recebiam uma educação católica nos campos. E em casos extremos eram separados dos seus pais e entregues ao Serviço Social e a instituições religiosas para os extrair definitivamente de um meio que se julgava pernicioso”. Houve ciganos encerrados no Campo de Augulema até maio de 1946, nove meses depois da Libertação.