Público (25 jan)
“Ciganos são os excluídos dos excluídos”
Carlos Jorge Sousa (CS) foi terça-feira anunciado como coordenador do novo Observatório das Comunidades Ciganas. É professor do ensino secundário, fez mestrado em Relações Interculturais e doutoramento em Sociologia na Universidade Aberta
CS tem raízes ciganas (paternas), é investigador do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, onde coordenou a primeira fase do Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas (ver artigo neste nº). O Observatório das Comunidades Ciganas Portuguesas é uma novidade trazida pela Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas, sendo a equipa composta por três outros elementos, do Alto Comissariado para as Migrações.
Questionado sobre o que será o Observatório das Comunidades Ciganas, CS afirma que “será um motor de criação de redes de cooperação, que terá entre os seus objetivos a desconstrução de mitos e representações que existam relativamente às comunidades ciganas. Vamos ter um site.(…) Queremos criar condições para recolher, mediar e divulgar trabalhos sobre as comunidades ciganas”.
Sobre a edição de estudos refere que irão ter duas coleções: “uma para divulgação de estudos, teses, e outra mais aberta, com publicações que podem ser o resultado de uma conferência, de um colóquio, de um seminário.” O objetivo é “criar espaços de diálogo, de confronto de ideias, de produção de resultados… (para) influenciar as políticas públicas”.
Sobre a escolarização, CS declara que a sua preocupação “é a escolarização das meninas e dos meninos ciganos”: se houver “um projeto que garante que as meninas farão a escolarização obrigatória numa turma que não seja mista”, CJ apoiará esse projeto, e acrescenta que “a interculturalidade é fundamental”. Sobre a questão do casamento das raparigas ciganas, CJ afirma que “a rapariga não casa se não estiver de acordo”.
Sobre a escolarização, refere que o Observatório “pode colocar as pessoas a discutir de forma livre, não preconceituosa, para encontrarem caminhos que permitam propor respostas públicas.”
Relativamente ao primeiro grande estudo nacional sobre as comunidades ciganas, afirma que “as famílias ciganas continuam a estar numa situação muito má. Há evolução mas ténue. Há distanciamento de algumas famílias ciganas relativamente a não ciganas. Temos muito trabalho a fazer aí. Mas temos de saber que os ciganos têm de ter acesso a educação, a emprego, a saúde, a Segurança Social, como todos os outros portugueses. Há uma parte que lhes compete a eles e eles nem sempre cumprem, nem sempre se esforçam, mas também há uma parte que cabe ao Estado, a todos nós.”
CS afirma que “ainda não existe um quadro de mediadores ciganos”, que são muito importantes, nomeadamente nos hospitais para intermediar entre as famílias e o hospital “em situações que às vezes são de conflito muito grave”.
CS compara a lei cigana com o Direito Consuetudinário: “não está escrita em lado algum”. É interpretada de acordo com as conveniências”, mas não viola “os direitos humanos”.
CJ afirma que “vivemos numa sociedade que exclui.” “Os ciganos continuam a ser os mais excluídos de entre os excluídos?” Temos de construir respostas para atenuar estes problemas gravíssimos”. “Se não nos respeitarmos na diversidade humana, não teremos uma sociedade humanamente recomendável”.