JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (2 a 15 mar) – CULTURA CIGANA

Cinema Português: Um novo ‘impulso’ (capa)

Balada de um batráquio’ venceu o Urso de Ouro para ‘curtas’ no Festival de Berlim, em que Portugal apresentou oito filmes. E neste mês de março estreiam quatro novas ‘longas’ nacionais. O JL ouviu a autora da película premiada, Leonor Teles (LT).

 

Um Urso por um sapo

Foi a segunda vez na sua história que Portugal arrecadou o prémio, depois de João Salaviza, com Rafa em 2012.

Aos 23 anos, é a mais nova realizadora de sempre a ganhar um Urso de Ouro no Festival de Berlim, e a segunda portuguesa a alcançar este prestigioso prémio. Antes de Balada de um batráquio, e o seu filme anterior Rhoma Acans, estão ambos intimamente ligados à sua ascendência cigana.

 

Se em Rhoma Acans pretendeu expor e denunciar, com um olhar próximo, a abjeta tradição machista dos ciganos, que impede as meninas de irem à escola; em Balada de um Batráquio faz um ataque pujante à xenofobia sobre a comunidade, a partir de uma superstição usada por alguns comerciantes para afastar ciganos dos seus estabelecimentos. Os ciganos têm pavor de sapos e por isso não entram em lojas com estes animais representados. No seu filme, LT conta a lenda que está na origem desta superstição e, numa segunda parte, ela própria e a sua equipa entram sorrateiramente em lojas e quebram os sapos de louça, à revelia dos comerciantes. Tudo isto, filmado, em Super 8, com um apurado sentido estético, que eleva o filme para um patamar artístico. Balada de um batráquio é um filme punk, de quem acredita que o cinema pode mudar o mundo.

 

O JL questionou LT se a sua identidade cigana é um tema que lhe interessa explorar ao que LT respondeu que no Rhoma Acans, sim, o questionamento sobretudo da forma como as mulheres são tratadas, mas neste filme “apenas quis revelar que existe um determinado comportamento discriminatório e depois fazer alguma coisa contra isso.”

Sobre se este é um filme de intervenção, LT refere que Rhoma Acans ilustrava uma situação, mas não dava respostas”, porém “não quis que acontecesse o mesmo neste filme”.

Questionada se os sapos foram quebrados com o consentimento dos lojistas, responde que não, que “foi tudo a revelia. O filme perderia toda a sua credibilidade se avisássemos os lojistas”. Numa das vezes foram apanhados, “depois meteu a polícia e foi uma grande confusão”.

O filme foi filmado em Super 8, um formato dos anos 70, pelo que um dos seus produtores, João Miller Guerra diz que é um filme punk, mas todas as opções técnicas, de estrutura e de forma foram para o colocar no patamar do cinema.

Sobre as suas origens ciganas, afirma que “toda a família do meu pai é de etnia cigana. É incomum um cigano casar-se com uma não cigana. Mas isso aconteceu por via da minha avó, que sempre quis que os filhos fugissem a essas tradições rígidas. Mantive a ligação enquanto eles foram vivos.” “Não faz sentido perpetuar tradições machistas que implicam um fechamento em relação ao resto da sociedade. Deviam antes valorizar outros aspetos, como a música.”

Quando LT frequentou um curso de cinema, percebeu que era aquilo que queria fazer.

LT acha que é sempre algo complicado fazer cinema em Portugal. “O Urso significa o reconhecimento do trabalho feito. Espero que represente uma mais valia para o cinema português abrindo portas para todos, sobretudo os que estão a começar a fazer cinema. É importante valorizar o trabalho dos jovens”. LT termina afirmando que com a sua equipa partiram uns quantos sapos no filme e outros em Berlim: “o número já vai grande”.

 

Os portugueses na Berlinale 66

A presença portuguesa na Berlinale 2016 foi a maior de sempre em festivais internacionais, tendo o Urso de Ouro, para a curta-metragem Balada de um Batráquio, de LT, provocado um impacto muito positivo para o interesse dos filmes portugueses.

 

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Cinema: Manuel Halpern

Balada de um batráquio, o filme de LT é exemplo também de singularidade. A sua atividade de irreverência extravasa o domínio do cinema, com quem acredita que o cinema pode ter uma intervenção direta na realidade. “É uma obra raríssima, também pelo seu despretensiosíssimo e pela sua atitude explícita mereceu a distinção do júri”.