“Sou uma ponte para ajudar a comunicar com a comunidade cigana” (capa do Jornal) (por Jorge Pires Ferreira, Director Adjunto do CV)


Correio do Vouga (1 Dez)
“Sou uma ponte para ajudar a comunicar com a comunidade cigana” (capa do Jornal) (por Jorge Pires Ferreira, Director Adjunto do CV)
Entrevista a João Seabra (JS), mediador sócio-cultural para as comunidades ciganas do concelho de Aveiro
A entrevista seguiu-se ao seminário “Mediar para incluir”, em 23 de Novembro. JS “não acredita na integração plena da comunidade cigana, mas defende passos firmes de aproximação de ambos os lados.”
JS, cigano de 41 anos, é mediador sócio-cultural e trabalha entre o Projecto Multi-Sendas (da Cáritas Diocesana), a divisão da habitação Social da Câmara Municipal de Aveiro e as 48 famílias ciganas residentes em casas camarárias mais as quatro comunidades em acampamentos (3 em Ervideiros, Esgueira/Cacia e uma em S. Bernardo).
Para JS “o mediador é um facilitador da comunicação entre os serviços e a comunidade de etnia cigana. É também um gestor e mediador de conflitos.” Afirma que exerce a sua acção de intervenção em 3 eixos: habitação, educação e área lúdico-cultural.
Em relação à habitação procura “sensibilizar a comunidade cigana para as regras que há a cumprir”, porque “muitas vezes não entendem os procedimentos que têm de ser efectuados porque fazem parte da lei”. Na educação faz “um trabalho de articulação com as escolas e de sensibilização dos pais. É importante lembrar-lhes que a educação e a escola são importantes para o futuro dos filhos”. “Sou a ponte para estabelecer o diálogo entre directores de turma e escola e encarregados de educação desses alunos”. Em relação aos problemas que mais surgem nas escolas afirma que é o “absentismo escolar”. Embora refira que este ano está a ter outro problema que é “o comportamento desadequado de alguns alunos de etnia cigana”.
No que concerne à área lúdica colabora e participa na dinamização de actividades de carácter recreativo, lúdicas e culturais, promovidas pelo Multi-Sendas e pela equipa técnica que acompanha os processos do RSI das Famílias.
JS afirma que o balanço do primeiro ano como mediador, é “positivo, embora haja algumas dificuldades”. Recorda que a comunidade cigana não é “homogénea. Há grupos que há muitos anos valorizam e sabem da necessidade de escolarização para prepararem um futuro diferente para eles. Mas é claro que há outros em que isso tem de ser mais trabalhado”. “É bom verificar que.. aumenta o interesse pela escola”.
Recorda que já existem ciganos licenciados, e sublinha que “a educação é o factor essencial para a aproximação entre comunidades e a integração da comunidade cigana”.
Sobre o seu trabalho refere que é importante, porque “além de ser exemplo para eles, é um desbloquear de mentalidades, uma tentativa de mudar a forma de pensar da minha etnia”. “Estudar, ir à escola não retira de forma nenhuma a nossa cultura, porque está enraizada (…) mas vai acrescentar novos conhecimentos favoráveis a uma plena integração na sociedade”.
Refere ainda que no início, a sua comunidade não entendia muito bem a sua função e pensavam que “que eu tinha deixado de ser cigano”.
JS nota “uma grande resistência por parte das famílias quanto ao desenvolvimento de outras iniciativas realizadas fora do bairro. Geralmente não autorizam a participação em actividades pedagógicas e culturais, nem participando eles próprios”. Refere ainda que muitos ciganos “têm medo de não serem aceites” e “de que a cultura e os costumes não sejam aceites” pela cultura maioritária. JS fala ainda dos problemas da droga e das profissões exercidas pelos ciganos: a sua família não é feirante, trabalha na decoração de interiores. “A base da nossa cultura é o respeito pelos mais velhos”, pelos pais. JS tem o 12º ano e pensa licenciar-se; afirma que tem orgulho em ser cigano. A sua família nunca sentiu superstição relativamente aos sapos. Para se conseguir a integração tem de haver “esforço dos dois lados”, “tem de ser trabalhada” por “aproximações sucessivas”.